quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre os Excessos Teóricos na Psicanálise


Ao longo de minha prática clínica, e em minha experiência como analisando, comecei a perceber que há um excesso de teorizações que é inútil, impraticável, pois não se presentifica no contexto transferencial propriamente dito, que consiste numa singularidade em cada encontro analista/analisando. O contexto transferencial é uma pecualiaridade tão específica, que fica impossível de teorizar. Apenas podendo ser uma experiência transmitida. O encontro, em sua especificidade, tem a ver com um silêncio ativo por parte do analista, pois há ali uma presença física, ao menos. Acho que negar a existência do analista, em sua complexidade, talvez seja o maior representante de resistência, de recalque, de muitos lacanianos. Às vezes, lendo alguns teóricos de orientação lacaniana, fico com a impressão que não há práxis, mas apenas uma fria abstração que não condiz com a real experiência clínica da psicanálise. Por isso, sem me distanciar do movimento lacaniano, estou dando atenção a outros autores da psicanálise, esquecidos na contemporaneidade. Mas não sem retornar sempre a Freud, lugar do qual nunca deveríamos ter saído enquanto psicanalistas.

Por mais que neguemos, não há só o texto do analisando em construção pela escuta do analista. Pois essa escuta está contextualizada na transferência. E a transferência é, mediada pelo discurso do analisando, uma relação entre duas "subjetividades", analista/analisando. Ou seja, "nunca é sem um fora de contexto", quer dizer que até os atos-falhos só ocorrem num determinado contexto, numa determinada posição transferencial, numa determinada condução analítica, inclusive contextualizada pelas características afetivas do psicanalista.

Teoricamente, não é uma relação intersubjetiva, mas não é sem isso. Por mais que esse seja o "ideal" de análise, a dessubjetivação do analista, para se disponibilizar como semblante da falta, do objeto causa de desejo, algo da "subjetividade" do analista está implicada na transferência, fazendo não só uma escuta do texto do analisando, mas trazendo em cena um contexto transferencial, com a presença real do analista. É o discurso do analista, a escuta como desejo do analista, esvaziada de libido, e sem linguagem própria. O desejo do analista é esse oco de pulsão, vácuo do real que suporta o discurso do analisando. A escuta do analista é apenas do texto do analisando, em sua constituição, pois não pode operar pelo artifício da metalinguagem. A linguagem, que mediatiza a transferência, é a fala do analisando, e nada além nem nada aquém.

Obviamente que o analista não intervém palpitando, nem dando conselhos. O analista, que é uma função, ocupa uma escuta do desejo que emerge no discurso do analisando. O analista não coloca na transferência sua suposta subjetividade. Não há eu do analista numa análise. O que estou dizendo, é que, nesse silêncio que o analisando constitui, há algo indizível desse analista que, além de sustentar a especificidade transferencial, também participa com uma presença real que está para além das ficções elaboradas durante uma análise. O analisando, em seu endereçamento, como suposto saber, constitui a função do analista. Não há analista fora desse contexto transferencial. O analista é criado pela fala do analisando, tão somente assim.

Também é importante salientar que consiste num engano acreditar na triangulação edípica, da família nuclear moderna, como uma estrutura real... a questão não é estrutural, mas produzida como efeito simbólico, é a triangulação funcional que conta, e não real... não existe esse papo de papai, mamãe, filhinho fora de discurso... isso não é real... é apenas efeito simbólico, funcional.
O falo é esse significante da falta, que se inscreve quando a função materna, por ser um outro castrado, convoca a interlocução do terceiro por lhe faltar completude... antes mesmo da possibilidade desse terceiro real interceder, a própria castração da mãe, convocando-o, já significa a instalação da função paterna, como metáfora da lei já transmitida pela função materna.

Texto escrito por Alex Azevedo Dias.

Um comentário:

zas.zas.zas disse...

A partir de minha pequena babgagem teórica penso que na psicanálise não há separação entre teoría e prática... a psicanálise enquanto discurso do sujeito, quando "praticado", advindo do ato analítico que se estrutura na teoría, vem à tona com a verdade no a posteriori da interpretação, que retroativamente teorizar-se-á em outra ficção, em outra posição discursiva. O que resta ao analista é apoiar-se na teoría a partir de sua construção imaginária, teorizando a teoría que se fez prática na interpretação do sujeito. Mas enquanto ciência nos moldes do idealismo hegeliano a psicanálise é um sistema filosófico, por mais que neguemos, pois um conceito depende do outro, partindo de um conceito conseguimos deslizar em todos os outros, se um conceito cai compromete o sistema, não sem implicações na clínica... Mas a teoría só pode fazer sentido para o analista em sua própria análise...