segunda-feira, 25 de julho de 2011

Destino Selado.

















Deu alguns passos para trás, abaixou-se e bateu na terra com a mão espalmada. A poeira alvoroçou-se até tampar a visão do compadre Técio. Apenas com alguns resíduos de terra moída sobrevoando seus olhos, percebeu que Pai Tunho continuava na mesma postura. Contemplava o vazio. Pensou em bater em seu ombro para trazê-lo novamente à realidade. Mas recuou, temendo interromper o transe. Soube que, assim como os sonâmbulos que ao serem acordados podem cair duros no chão, se as pessoas em transe fossem sacudidas, incorporariam alma de outro mundo para sempre. Técio se afastou mais e descansou o corpo ao encostar no espesso tronco de uma mangueira do tipo carlotinha.

Pai Tunho havia flexionado o joelho esquerdo - no qual apoiara o queixo -, mantendo a planta do pé em contato com a terra, enquanto permanecia com o joelho da perna direita encostado no chão. Suspirou fundo. Procurou Técio com as velhas vistas. Ergueu o braço que não servia de base para sustentá-lo naquela posição cansativa, e pediu ao companheiro para que o ajudasse a se levantar. Técio saiu rapidamente do ostracismo e saltou ao encontro daquele homem para o qual devia a própria vida.

Quando jovem, Técio era conhecido na cidade de Barro Batido como um exímio capoeirista. Desafiava todos os mestres e iniciados do vilarejo para jogar e dançar. Poucos se arriscavam. A maioria esmagadora saía derrotada sem que Técio encostasse um dedo sequer em seus oponentes. Eles tombavam exaustos por não suportarem o ritmo frenético de sua ginga.

Próximo à roda de capoeira, havia um homem que, com seriedade, ficava sempre por ali apreciando a diversão dos meninos. Todos sempre estranharam a presença taciturna de Tunho. Vestido com uma longa bata branca, diversos colares e fumando seu inseparável cachimbo, Tunho demorava-se sentado numa cadeirinha de madeira para assistir à capoeira. Quase ninguém tinha coragem para chegar perto de tamanho macumbeiro - temia a crendice popular. Achavam até que se fosse encarado por mais de dois segundos, os curiosos seriam vítimas de mandinga e reza brava.

A fama de Técio se alastrara para além das fronteiras da humilde Barro Batido. Forasteiros souberam do nome daquele camarada tinhoso que enfrentava quaisquer briguentos que entrassem na roda. Um dia, um malandro que já tinha o orgulho ferido por outras pendengas, apostou com os comparsas que mataria Técio. Ele escondeu uma peixeira por baixo dos farrapos do que fora uma espécie de quimono e pulou na roda para jogar. Quando esse forasteiro malicioso, esquivando de um golpe de Técio, desembainhou a peixeira do cinturão, e estava prestes a perfurar-lhe o abdômen, Pai Tunho surgiu na frente do sujeito mal-intencionado e lhe arrancou a faca. Ninguém compreendeu aquela aparição. Era improvável que Tunho tivesse saído de sua cadeira, plenamente acomodado, e, de um salto, chegasse entre os dois para desarmar o adversário de Técio. Fora inexplicável tal façanha. O que se sabe é que o forasteiro, perplexo, ajoelhara as pés de Tunho e ficara lá, mudo, por longos minutos, até virar-se de costas e sair correndo para nunca mais voltar.

A partir de então, Pai Tunho tornou-se querido por todos, principalmente por Técio - que passou a segui-lo incondicionalmente - e pelas crianças que rodeavam-no para que lhes contasse histórias fantásticas dos seus antepassados. Técio, além de seguir Pai Tunho, virou um dos seus mais dedicados e promissores aprendizes. Fora batizado pelos orixás, recebendo justamente o nome Técio - seu nome civil era desconhecido -, iniciado e doutrinado pelas entidades espirituais que lhes protegiam e davam deveres para cumprimento e a disciplina do povo.

O tempo passou, compadre Técio já estava se preparando para suceder Tunho em sua missão de Pai, mas as questões começaram a aflorar. Tunho já estava cansado, bem velho. Logo desencarnaria para se juntar às entidades as quais se dedicou durante toda a vida de humilde servidor. Técio fora nomeado para sucedê-lo. Porém, ele não se sentia preparado e sabia que não teria a mesma capacidade e abnegação para continuar o sublime trabalho de Pai Tunho.

Técio estava se ajeitando para se despedir e tentando arrumar difíceis palavras para dizer a seu mestre, quando, à sombra daquela frondosa mangueira, Pai Tunho ajoelhou-se. Técio não conseguiu abrir a boca para pronunciar as palavras de despedida, muito menos para se explicar de sua covarde decisão. Pai Tunho, em transe, silenciou-se, de olhos fechados. Recolheu-se em sua insignificância perante os orixás, e recebeu a graça de ouvir sagradas orientações. Foi nesse instante que Técio, encostado na mangueira, como para não perder o equilíbrio da razão, num conflito irredutível e trágico entre a sua vocação, seu desejo, para a qual dedicou-se desde que Pai Tunho o salvou, e a vontade medrosa de se esquivar, fugir para cidade, refazer sua vida distante do lugar no qual, de suas raízes, brotariam cactos e flores.

Pai Tunho estendeu a mão. Técio saiu do seu conforto sob os galhos da mangueira para erguer o velho. Quando sentiu seus dedos tocarem a áspera e enrugada mão de Tunho, Técio percebeu a força dos ventos que sopravam em sua direção, assoviando ao atravessarem as lâminas cortantes das folhas novas. Não conseguia abrir os olhos, pois a força era tanta que suas pálpebras não se mexiam. No momento em que pôde ver, Pai Tunho havia rejuvenescido, mas não perdera o vigor e a sabedoria de um homem nobre. Fixou os olhos. A imagem se embaçara. Notou certa semelhança e familiaridade.

Surpreendido, Técio não pôde mais duvidar. Era ele o novo Pai. Tunho já desencarnara havia tempos. Aquele Tunho jovem que surgira diante de seus olhos, não era Tunho. Era um Pai, mas não Tunho. Técio estava diante de um espelho d'água cristalino refletindo áurea imagem no muro branco do quintal. Técio era agora, Pai Técio. Seguiu seu destino. Assimilou sua condição transmitida pelo amor. Destino selado - trágico e belo.



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

3 comentários:

bia santos disse...

A forma com você conduziu a narrativa foi excelente...

Existe uma mística muito forte, que ronda o imaginário popular quando o assunto é pais de santo, capoeira e candomblé...

Consegui visualizar todos os detalhes das cenas...

Me lembrei do Livro "Tenda dos Milagres"...

Agnes disse...

Gostei por que vc escreveu tudo detalhadamente, realmente consegui VER o texto.
As metáforas que vc usou também foram bem legais.

jaka disse...


Menino quem foi teu Mestre
Meu mestre foi Salomão
A ele devo dinheiro
Saber e obrigação
O segredo de São Cosme
Quem sabe é São Damião
Olê água de beber
Olê faca de cortar
Olê terra de brigari