quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Besouro de Praia.










Uma ventania alvoroçou os grãos de areia da enseada. Banhistas sentados à sombra de suas exageradas barracas, sofreram a inusitada invasão momentânea de um imenso ciclone. Seus objetos foram arremessados para longe e suas vistas arranhadas. Passados alguns minutos, todos começaram a voar em espirais e elipses.

Cambaleando, o único sobrevivente que escapara do ciclone engolidor de banhistas, porém perneta, esforçando-se para não perder mais nada além de seu calção de banho, logo desequilibrou de sua bengala e foi tragado para o olho solitário.

Foi aí que uma cratera surgiu no céu e um grande ovo foi excretado de seu orifício enigmático. A casca rachou e um besouro irrompeu de seu núcleo, zumbindo. As crianças cercaram-no, curiosas e admiradas com aquela criatura. Já os pais, advertindo-as, puxaram seus filhos para a proteção de suas familiares barracas de praia. O besouro cascudo não se intimidou. As crianças recuaram, mas ele se manteve imponente e inexoravelmente impassível.

Percebendo a agitação em forma de recuo dos banhistas, o besouro se despiu de seu cascão e lançou um olhar enrijecido, encarando-os. Descartou sua pesada carapaça que o imobilizava, tolhendo sua desenvoltura, e vestiu o calção do perneta que tinha sido sugado pelo ciclone.

Com uma tesoura que surrupiou da bolsa de um vendedor de bijuterias que estava estatelado na areia, entregue à exibição de seu mostruário a um cliente, o besouro customizou o calção do perneta e criou um belíssimo saiote escocês, um kilt, de qualidade inequívoca e se pôs a dançar músicas folclóricas do Reino Unido, tocando sua inseparável gaita de foles. Os banhistas se posicionaram em círculo, marcando a dança típica com palmas ritmadas. Após a apresentação, o besouro dançarino se curvou em mesuras e a platéia foi ao delírio em aplausos exuberantes.

O besouro se enrubesceu. Não estava acostumado em ser o centro das atenções. Então, perplexo com a expectativa do público que estava ansioso pela apresentação do próximo número de dança, o besouro pegou rapidamente seu cascão de volta e se escondeu do coro pedindo bis, bis. Passou algum tempo, os banhistas se desinteressaram, esquecendo-se do acontecimento inusitado. O besouro bailarino se desembaraçou de seu casco e tornou a ir de encontro ao seu saiote inebriante.

Antes que pudesse novamente vestir o saiote escocês, um garoto careca e queixudo, ainda tonto pelo vendaval de areia, tropeçou no cascão abandonado pelo besouro e acabou caindo sentado exatamente em cima do virtuoso e magnífico dançarino.

O ciclone ressurgiu, agora girando ao contrário, centrifugando todos os pertences dos banhistas que ele havia tragado da primeira vez. O homem da perna só que estava repousando desmemoriado no olho do ciclone, foi expelido, caindo de cara na mureta de uma carrocinha de sorvete na orla marítima.

O mesmo homem de uma perna só, ainda pelado, pois não sabia que fim levou sua sunga, vestiu-se rapidamente com o saiote que estava jogado de lado por algum banhista desavisado e confuso, não sabendo a visível diferença entre terras tupiniquins e terras britânicas. Escocês de tanga e índio de saiote, qual diferença faz? Realmente não havia nenhuma - concluiu.

Mas tudo voltou à normalidade. Apenas o garoto careca e queixudo ganhou uma verruga nova em sua nádega direita.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

3 comentários:

Liz disse...

Santa imaginação Batman! kkkk

Barbaridade Tchê! Quando eu penso que já li de tudo, tu vens contando algo impensável.rs

Guri, Isso sim é uma perfeita estória de pescador intelectual.
muhuahauhauahua

ADOREI!

barbaranonato disse...

Boa! Fez rir mesmo.
Já fui vítima de um vendaval na praia e caí levei um golpe de uma barraca de praia voadora que me jogou longe. Perdi o picolé que segurava. Você me fez lembrar essa ocasião, e lá se vão muitos anos.
Fenomenal tua genialidade de dar vida ativa a um besouro e, o mais legal, fazê-lo usar um saiote. Muito bom e divertido mesmo!

Alex Azevedo Dias disse...

Fico lisonjeado em poder produzir reminiscências. Catarses não com o trágico, mas sim com o cômico. Aliás, assim como o amor e o ódio, em suas ambivalências, são carne e unha, a tragédia e a come´dia são gêmeas xifópagas! Amódio e tragicômico, quem vai querer? Seria trágico se não fosse cômico... E como a mudança dos fatores altera o produto - Seria cômico se não fosse trágico! Abraços...