domingo, 26 de dezembro de 2010

Transamazônia














Sentados em um espesso tronco de mogno, em plena floresta amazônica, no escaldante verão brasileiro, dois franceses exaustos, enxugando o excesso do suor e tentando repelir os mosquitos, conversavam com indisfarçável apreensão. A temperatura estava muito alta, com a umidade relativa do ar beirando os 100%. Henry e Pierre já estavam quase anêmicos, desidratados e sofrendo pela insolação. Um mistério rondava o diálogo daqueles dois estrangeiros. Quase não tinham forças para afugentar os pernilongos e borrachudos que insistiam em extrair as últimas gotas de sangue daqueles miseráveis corpos, parecendo urubus sobrevoando a carniça.

Mesmo praticamente sem fôlego, inundados pela transpiração expelida por todos os poros, ainda tinham energia armazenada o suficiente para puxarem um cigarro.

Imediatamente recostaram-se meio desajeitados pela tonteira, em finos caules de embaúbas, esquivando-se de indesejáveis formigas agressivas que se aninhavam por ali. Colheram uma variedade frugal que estava caída aos seus pés, e suavizaram a secura espumosa de suas bocas. Logo, acenderam os cigarros, deram uma demorada tragada, e readquiriram a capacidade de falar.

- Não consigo dar mais nenhum passo. Não sei nem mais o que viemos fazer neste fim de mundo...

Resmungou Henry, com a fala embargada e com o cigarro no canto da boca, grudado nos lábios pelo muco que se formou como sintoma da desidratação.

- Se você não sabe, ou não quer saber, eu sei! Chegamos até aqui, não vou recuar!

Pierre vociferou com os olhos esbugalhados, obstinados, devorando com rancor irreprimível a fragilidade impressa no semblante de Henry.

- Estamos andando em círculo faz horas. Você decifrou os códigos corretamente?

- Claro! Eu transcrevi o mapa com absoluta precisão, exatamente como o Sebastian me informou.

- Mas não chegamos a lugar nenhum!!

- Como não, monsieur?! Já se esqueceu que encontramos o tal casebre no qual o nosso contato deveria estar presente?

- Oui... Mas nem sinal dele. Onde será que se meteu?

- O que tanto o instituto quer nos comunicar?

- Você veio até aqui e não tem a menor noção sobre o que se trata esse assunto?

- Vagamente, vagamente... Só sei o que ouvi dizer...

- Não posso acreditar nisso! Como a agência o contratou?

- Eles acreditam em minhas habilidades exploratórias. Não me forneceram maiores informações. Deram-me somente instruções básicas.

- Estou começando a perceber que você é imprestável. Mas a agência não pode ter se equivocado na seleção de seu pessoal. Você deve ter suas qualificações. Talvez essa escolha faça parte de uma tática infalível, uma missão secreta. Você não é meu parceiro por acaso, certamente.

- Pierre, já estamos recuperados, temos que continuar interpretando esse mapa. Você, mais do que ninguém, sabe que não podemos perder tanto tempo.

- Eu sei, mas você não acabou de confessar que não sabe de nada?!

- Sei o que tenho que saber!

-Oui, Oui... Allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé!

Após balbuciar, sabiamente, a primeira estrofe de La Marseillaise, Pierre levantou-se dando um rompante, bruscamente, puxando Henry pelo braço.

- Você não me alertou para continuarmos? Levante-se! Logo!!

Ambos se ergueram e reiniciaram a jornada, distanciando-se lentamente do tronco de mogno. Um céu azul opressor, imenso, homogêneo, totalmente límpido, sem nenhum resíduo de nuvens, reinava soberano sobre as cabeças dos bravos viajantes. Generoso ambiente com diversificadas vegetações, exuberantes hidrografias e relevos, clima equatorial quente e úmido, caleidoscópio de beleza, mas impiedoso com aqueles que não cresceram nos trópicos.

Ao chegarem a uma zona de desmatamento, visualizaram um modesto alojamento, talvez moradia provisória dos contrabandistas, funcionários de madeireiras ilegais. O visionário Henry intuiu que aquele era o exato local em que finalmente seus destinos se consumariam.

- Pierre, pressinto que nossa missão está chegando ao fim!

Pierre sabia que os pressentimentos de Henry eram equivalentes a certezas. Ele não era guiado pelos atributos racionais, mas dispunha de um aparato de antenas e radares biológicos exclusivos, quase sobrenaturais.

- Aquela habitação me parece familiar. O telhado em forma de pirâmide coincide com este desenho do mapa. Veja!

- Oui, Oui... Tem a famosa letra “X” sinalizando o ponto final de nossas buscas.

- Estou vendo uma movimentação por lá. Certamente a casa não está vazia.

- Vamos até lá investigarmos!

Suas percepções pregaram-lhes uma peça, pois ao chegarem ao alojamento, após abrirem a porta que estava destrancada, vislumbraram total ausência de vida humana, confrontando-se com um ensurdecedor e angustiante silêncio.

- Pierre, já estivemos aqui! Lembra-se? Esta é a mesma cabana pela qual passamos da primeira vez.

- Eu me recordo. Nosso contato havia marcado para nos encontrar aqui e, repetindo a dose, novamente não há ninguém.

- Avoir déjà un pied dans la tombe! O que faremos agora?

- Estamos completamente perdidos!

(...)

- Mamópa reju?

- Não compreendo nada que você diz! – Disse Pierre assustado.

Ao perceberem que estavam sendo cercados, Pierre e Henry ameaçaram correr.

- Eju ápe!! Mba'e rejapo?

Os índios cercaram cada vez mais os dois estrangeiros, empunhando arcos, flechas e outros objetos desconhecidos. Pierre e Henry estavam suando frio. Será que seriam vítimas de um estranho ritual? Os índios pintaram seus rostos com a tinta vermelha das sementes de urucum, amarraram folhas de bananeira em seus abdomens, furaram as cartilagens das orelhas e do nariz de ambos, introduzindo pequenos gravetos coloridos.

Instrumentos tribais repicavam peculiares sons. O pajé sacudia e girava um pequeno chocalho que chamava de mbaraká miri, em variados ritmos, enquanto entoava canções e proferia rezas. As mulheres agitavam um bastão oco, percutindo-o contra o solo de forma vertical. Os demais índios compunham a cerimônia batucando em tambores modelados em cilindros feitos de grossas cascas de madeira, ocos no centro e revestidos com um tipo couro nas duas extremidades.

- Che rojukáta!!

Em um êxtase xamânico, os índios ofereceram infusão das folhas de uma planta chamada ayahuasca, para que os estrangeiro bebessem. Após os primeiros goles, os dois ficaram entregues a uma intensa manifestação alucinógena, desabando no chão, desmaiados. Quando acordaram, nada mais viram, estavam sozinhos. Os índios não estavam mais por perto.

Andaram durante horas sem descansar. Já estavam submetidos à inanição, quando avistaram o tronco de mogno com as convidativas frutinhas. Ao abaixarem para colhê-las, sentiram uma ardência no pescoço, seguida de uma progressiva sensação de anestesia. Eram pequenos dardos envenenados com curare.

(...)

- A partir daí, intoxicados, seguiram rodando em círculos, numa aventura repleta de tribos selvagens, contrabandistas e mapas do tesouro.

- Mas e o resto da estória?

- Ah... Vovó já está cansada! Preciso deitar um pouco. Por que não vai dormir? Já está tarde!

- A senhora é a única que me conta sobre o meu pai. Mamãe nunca diz nem uma palavra sobre ele.

- Sei que vocês se dariam muito bem. Seu pai iria gostar de conhecê-lo.

- Por que ele foi embora tão cedo? Acho que ele não quis me conhecer...

- Não diga isso, menino! Sei que conhecer você seria uma grande felicidade para ele.

A avó foi saindo do quarto de seu neto, Sebastian, enquanto lastimava que seu genro tivesse morrido sem nem ao menos saber que sua filha estava grávida.

Sebastian tirou um papelzinho amassado de seu bolso. Desdobrou-o e se sentou à escrivaninha. Era um mapa que estava desenhando há mais de uma semana. Todo colorido, delimitando com riqueza de detalhes todo o percurso que o limiar de sua imaginação permitia. Para finalizá-lo, marcou com um “X” a pirâmide localizada no pátio principal do Palácio do Louvre. Na semana retrasada, foi visitar o museu pela primeira vez com sua avó. Era lá, naquele palco fantástico, que sempre desejara conhecer seu pai.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.


Tradução das expressões em francês e em guarani:

Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé = Avante filhos da pátria, o dia da glória chegou

La Marseillaise = Hino nacional francês

Avoir déjà un pied dans la tombe = Com um pé na cova

Guarani:

Mamópa reju = De onde você vem?

Eju ápe = Vem aqui!

Mba'e rejapo = Que está fazendo?

Che rojukáta = Vou matar você!

ayahuasca = Matéria prima do Santo Daime.

4 comentários:

Anna Barreto disse...

nao tenho paciencia pra ler tudo. eh mto grande. =P eh, esse tb n eh um comentario inteligente nem artificial, hahahaha
bjoo

ps: mas eu gostei do inicio, prefiro q vc me conte as historias, pode ser?

Liz disse...

muhuahauhauaha

Liz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme Lombardi disse...

muito bom seus textos.