sábado, 19 de março de 2011

Santo Pai, Santa Bala.













Sob caixotes empilhados, cobertos por um longo lençol branco, o altar improvisado suportava diante de si um homem ajoelhado. Na posição de clemência, Arcanjo suplicava à ausente imagem santificada. Não havia andor, nem mesmo o santo era de barro. O que havia no lugar da fé e orações, era um cartucho de bala - adorado por Arcanjo.

Há alguns anos, planejando dar cabo de sua própria vida, foi à igrejinha perto de sua casa e, com uma vasilha, recolheu um pouco da água benta que estava numa caldeira logo na entrada do templo. A bala, ele já possuía. Fora a única que restou na gaveta do seu velho pai morto - homem que se dedicara exclusivamente, até o último minuto de vida, à contravenção. Como seu pai não deixara patrimônios - apenas alguns bastardos rebentos pelo mundo afora - aquela bala fora a herança máxima de um pai subversivo.

O mais digno a ser feito por um homem de passado maculado e sem perspectiva de futuro, era cometer o suicídio com o honrado cartucho que seu pai lhe deixara. Seria lembrado eternamente por tal ato derradeiro. Por isso, cultuava aquele imponente cartucho no topo do altar improvisado - seu objeto sagrado, pai celestial.

Não constituíra família. Então, ao contrário do seu pai, não deixaria herdeiros - nem oficiais nem ilegítimos. Apenas a sujeira de seus restos mortais daria trabalho aos agentes sanitários. Um amontoado de matéria orgânica perecível. Mas tinha o corpo raquítico, logo, nem tanto ficaria exposto na cena do crime. Aquela bala de rifle faria um estrago sem precedentes. Ficaria desfigurado, irreconhecível, caso apontasse para a própria cabeça e apertasse o gatilho.

Depois de pedir permissão às santidades de sua devoção, retirou o cartucho do altar e o submeteu a um ritual de polimento visando a purificação total do artefato. Com uma fina flanela, umedecida na água benta roubada, começou a esfregar o cartucho até a última poeira desaparecer de sua superfície. Munido daquele rifle antigo, após uma limpeza minuciosa da ferramenta fatalista, encaixou o cartucho, ficou de cócoras - em sinal de penitência -, virou o cano da arma para a ponta do seu queixo, apoiou-a entre as firmes pernas - com o sangue frio, pois tudo havia sido calculado - e apertou o gatilho com obediente propósito de passar a existir na morte.

No instante do disparo, fechou bem os olhos para não sentir o forte impacto. Após alguns segundos do disparo do rifle, ainda ouvindo o silêncio - tendo seus sentidos intactos -, abriu levemente os olhos, passou as mãos pelo queixo - a procura de um rombo monumental -, mas nada achou. Era apenas vento. Falhou...

Desengatilhou o rifle e retirou o cartucho. Examinou com cuidado... Depois de tanto tempo adorando-o, constatou que estava vazio. Tragicamente vazio. Nem um mísero resíduo de pólvora se demorava ali. Concluiu então que a bala utilizada para tirar a vida do seu pai saíra daquele mesmo cartucho. Essa era a herança do seu pai: Um cartucho vazio, usado contra si mesmo, num ato de desespero.

Arcanjo lamentou a verdade dos fatos. Lamentou não poder morrer com aquela bala inexistente. Nem ao menos uma bala real com a qual poderia se suicidar, havia ali naquela herança. O ingrato do seu pai deixara como presente o símbolo de sua covarde morte: O cartucho com o qual ele se matou. Não havia mais bala. O pai não deixara a bala para a morte do filho, mas sim o vazio que simbolizava a morte do pai.

Arcanjo então se levantou, limpou os pensamentos que não cessavam em invadi-lo, desfez o altar improvisado e jogou o cartucho vazio na lata do lixo. Teve uma ideia para aproveitar os caixotes que não mais seriam úteis naquele local. Munindo-se de graxa, flanela e outros produtos a mais, colocou-os no caixote, agora transformado em cesta com apoio para os pés, e saiu à rua, finalmente, para subverter a herança macabra de seu pai. Dignamente, como engraxate, foi ganhar a vida.


ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

8 comentários:

Vitor disse...

Olha só, meu caro Alex. Como disse por e-mail, isso não me surpreende.
Claro, ver o campo "profissão" preenchido com a palavra Escritor me pegou de surpresa, boa e ruim ao mesmo tempo, porque sei da sua competência.
Entratanto, ver que isso não passou em branco e compõe suas obras - quem mais poderia falar do vazio deixado na morte do pai? - me deixou realmente feliz.
Se todos buscamos identificação, está aí um ótimo exemplo. Isso porque gostaria que você visitasse meu finado blog. Está aí no perfil.
Abraços, rapaz.

Alessandra disse...

Soemnte uma palavra:
IMPACTANTE
PArabéns pelos posts

http://alebatist.blogspot.com

Bruna Helayne disse...

Cara, choquei! Mas fico feliz, pois seguir a vida dignamente é o que há!

@gausscurra disse...

Impresionante
Muito bom o blog parabens

srta de sampa disse...

muito bom, acho q na verdade cada m encontra um pouquinho de si no personagem, nosso rifle c cartucho vazio são as nossas frustações e medos , nos suicidamos e renascemos sempre. Essa é a graça a vida. -Parabéns

Fabi disse...

impressionante.s

Loverocklive disse...

Mais um texto sensacional, parabéns pela facilidade que você tem para com as palavras.

Victor Von Serran disse...

Pude sentir o disparo da cartucheira..o cheiro da polvora,o fechar dos olhos...

Demais !
apertar um gatilho pra começar a viver..setá que todos não fazemos isso ?

http://universovonserran.blogspot.com