sábado, 24 de janeiro de 2009

Carnavalização da Lei.

Podemos pensar o fenômeno da carnavalização, como aquilo que destitui, como na dimensão de um teatro, os sistemas e padrões baseados em valores pré-estabelecidos. No carnaval, o brasileiro ensaia cenicamente as transgressões do cotidiano, utilizando o conteúdo latente do recalque, para sublimá-lo numa exibição ao público, seus rasgões pulsionais, em semânticas invertidas, balizadas pelo cenário foliônico. As máscaras da fantasia, velam e revelam a angústia da castração, expondo o inominável e a obscenidade, exercendo uma transmissão gozosa com o olhar, com a pulsão escópica. Esse olhar reflexivo, como demanda de retorno imaginário, deixa transparecer os furos de um real tão devastador, que é traduzido como ostentação do obscuro e do grotesco. O ofício da arte, seu artifício, fictício, transpassa cada anônimo, que ao exibir seu nome na multidão, perde-se em sua errância, em seu anonimato. O folião é o nome de um anonimato, que canta o seu ser despatriado, desertificado e deserdado por um Outro castrado, vazio, que nada mais tem do que um objeto que não lhe pertence.

No mito-científico do pai da horda primitiva, após a internalização da lei simbólica, do recalque, pela morte do pai real, pelo parricídio, os filhos erigem uma representação totêmica garantindo o exercício da lei pelo clã. Mas em determinados tempos, os filhos organizam rituais em que, simbolicamente, o pai é sacrificado e devorado. Esse ato de "canibalização da lei" implica num reforço da subjetivação dessa lei simbólica, da castração? Ou pode ser traduzido como uma atuação "pseudo-libertária", como presenciamos nas "comer-morrações" carnavalescas, em que a morte e o sexo, não-simbolizáveis, são sublimados artisticamente?

Não uma eliminação do recalque, mas uma suspensão temporizada deste. Quanto mais há um contexto em que o recalque se faz contrátil, movível, e não removível, mais há o reforço de tal instância, justamente por condizer com o assentimento da sua existência, legitimando o seu poder. As manifestações populares que exibem suas exuberância e extravagâncias, rompendo com os filamentos que margeiam a intransigência social, acabam , ao invés de "suprimir" o recalque, potencializando a falta pela exibição fantasmática, o que mantém a latência e a alteridade do real na superfície do inconsciente.

Há o paradoxo das Escolas de Samba. Todos os componentes perfilados, divididos em alas, separadas por temas encadeados por uma ordem de sentido constituida pelos diretores de conjunto, harmonia... Esses desfiles, aos moldes da organização militar, permitem a incoerência interna, mas mantendo uma coerência de simetria cronológica para o enquadramento externo da totalidade da Escola, precisando cumprir regras para não pagar o preço pela abertura de buracos ao longo da evolução. Não existe transgressão no regulamento métrico da Escola, por mais que os buracos escapem, capturados pela caneta voluptuosa e rígida dos julgadores, espalhados estrategicamente pelo sambódromo. (As canetas voluptuosas e rígidas obturam as faltas e mantém o desfile energicamente militarizado. Há repetição do ato sexual, que é falho por excelência, nas bordas erógenas, mas não sem produzir volúpia como impossibilidade no significante). A transgressão não é do Desfile, na organização militar dos componentes, mas sim, no desfile. Essa transgressão presentifica um gozo particular que jamais é exonerado. Essa transgressão interna ao desfile, presentifica os fantasmas nos quais circulam o pulsional. O gozo do olhar do expectador/participante, captura o instante subjetivo em que o fantasma que "reveste" a castração, do componente submetido ao enredo de sua Escola, subverte o objeto da pulsão, elevando-o à categoria de "Coisa". Segundo Lacan, a função da sublimação é elevar o objeto à categoria da Coisa, primazia inominável da arte, que realiza uma criaçaõ secundária a partir do olhar de que contempla a obra, adquirindo uma diversidade de sentidos por sua abastração, "non-sens".

Será, então, que as fantasias carnavalescas que não encobrem a castração, mas, ao contrário, deixa-a escancarada em seu vazio erógeno grotesco, cabendo apenas a criação humana, em sua "po-ética"? Uma viável oportunidade para valorizar a subjetivação da "po-ética" das fantasias para ser-si-mesmo!

texto escrito por Alex Azevedo.

5 comentários:

Cristiano disse...

Fala Alexey!
Visitei seu blog.
Parabéns pelos escritos.
Abração
Cristiano

Rita Apoena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline disse...

Pensei se talvez, aqui no Brasil, esse recalque pode ser relacionado com nossa condição social primária, um tanto paradoxal, de genocidas-escravocratas mas também vítimas daquele outro europeu. Não sei como dizer direito, mas no carnaval, as referências são principalmente indígenas e negras. Os que matamos, escravizamos...
e agora celebramos, homenageamos (mas sem uma elaboração construtiva) com os adornos e batuques. O samba e as passadas.

Alex Dias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alex Dias disse...

Mas Aline, esses que matamos, escravizamos... não só são outros, mas também somos nós. Somos esses outros, matamos a si... Não só somos os escravocratas, mas também os escravizados. Não só somos os colonizadores, mas também os colonizados. Celebramos nossa suposta destituição, nossa orfandade, a ausência de referências paternas... A homenagem é a essa ambiguidade. Temos um pouco de desbravadores, conquistadores. Temos um pouco de escravos, de índios. Não é à toa que a maioria de nós, tem como sobrenome Silva. Silva vem de silvícola; primitivo, nativo, brasileiro!