quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sangue do Meu Sangue.








Numa gaveta da cozinha, pegou uma vela e uma caixa de fósforos. Na sala, abaixou-se para alcançar na mesinha de mármore um cinzeiro de granito. Emborcou-o sobre a cristaleira antiga, riscou um fósforo para acender o pavio da vela e deixou que a cera derretida pingasse sobre o fundo do cinzeiro. Fixou a vela acesa na superfície parafinada. Apanhou um terço feito de bronze patinado que estava pendurado na parede, cruzou os dedos com a peça sagrada entrelaçada, ajoelhou-se em frente à vela e “desfiou o rosário”:

- Perdoe-me Pai, por ser hospedeiro do “coisa ruim”. O fato de querer matá-lo não o exclui de ser sangue do meu sangue. Ele não é culpado por ter nascido do mesmo pai e da mesma mãe.

- Deus misericordioso, não permita que eu o mate. Segure minha mão antes que eu desfira o golpe fatal. A culpa é minha, só minha, por odiá-lo tanto.

- O que ele fez comigo não se faz ao pior inimigo!! Como um irmão pode querer mal ao outro? Minha desgraça se deve a ele e a mais ninguém. Crápula maldito!!

Num gesto abrupto, Sânio bateu com as costas da mão no cinzeiro, arremessando-o contra a parede. No impacto com o piso de cerâmica vermelha, a vela quebrou ao meio, resistindo apenas mais alguns segundos com a chama acesa. Com o semblante contraído, a testa franzida e os olhos apertados, Sânio empunhou bem alto o terço de bronze, sacudiu-o diversas vezes e, desajeitadamente, colocou-o no lugar de sempre, pendurado na parede por um preguinho.

Percebendo que a hora já se avançara muito, foi ao quarto se arrumar. Seu irmão, Samir, marcara com ele uma conversa a sós. Faltava apenas quarenta minutos para o horário combinado. Ele precisava se apressar. Sânio morava numa casinha bem distante do tumulto civilizatório. A única casa de uma colina verdejante, com um lago de azul cintilante e um frondoso ipê amarelo. Sânio vestiu uma camisa branca de botão, com seu especial colarinho de linho engomado, colocou uma calça preta de brim e calçou os sapatos sociais devidamente engraxados. Deixou a camisa para fora da calça para ficar mais informal. Afinal, estava bem vestido, mas era para encontrar-se com alguém da família, e não com um grande executivo ou empresário.

Sânio saiu. Esquecera-se de fechar a porta. Contornou o lago. Parou em frente ao ipê amarelo e passou a mão em seu tronco de espessura moderada. Olhou para o horizonte e avistou um vulto próximo à beira do penhasco. Viu que ainda faltavam cinco minutos do horário marcado. Teve satisfação em constatar que Samir continuava pontual como sempre fora. Nunca atrasava nenhum compromisso. Mesmo quando brincavam na rua em que moravam quando crianças, Samir era o primeiro a chegar, antes de todos os garotos, e o primeiro a ir embora quando ouvia a grito da mãe avisando que anoitecera, e mandando que os dois irmãos voltassem para casa.

Samir estava de costas para Sânio e defronte ao precipício. Usava tênis branco, uma calça jeans surrada e um casaco Sobretudo azul-marinho que deixava entrever apenas a gola e as mangas da camisa de seda clara. Sobre sua cabeça, um chapeuzinho panamá compunha o figurino. Saboreava calmamente, com tragadas pausadas, um cigarrinho de palha. Antes de chegar, Samir - que não consumia fumo industrializado - enrolou o tabaco numa pequena palha de milho e passou a língua para fechá-lo. Pegou um isqueiro do bolso esquerdo e acendeu seu cigarro artesanal. Enquanto esperava o irmão, Samir ficou contemplando o belíssimo vale que se abria sob seus pés. Colocou o cigarrinho no canto da boca, deixou as mãos repousarem nos bolsos da calça e se manteve olhando fixamente para além do precipício, numa hipnótica sensação nauseante.

Um vento muito forte soprou para a colina. Sacudiu os galhos do ipê amarelo e levou embora o chapéu de panamá de Samir. Ele ainda tentou segurá-lo com as duas mãos, demonstrando certo nervosismo, mas a força da natureza venceu a tentativa do homem de recuperar o acessório esvoaçante. Enquanto Samir arrumava os cabelos desgrenhados, Sânio o cumprimentou com dois tapinhas nas costas.

- Há quanto tempo, velho irmão! Não me aguentava de curiosidade para saber o que o trouxe aqui depois de anos.

- Sânio, Sânio... Continua com a mesma ironia fina de sempre, heim!?

- Ok. Obrigado pela parte que me toca, mas vamos logo ao assunto que o fez voltar aqui.

- Meu assunto é apenas voltar a vê-lo, matar as saudades do meu irmão.

- Então vamos apertar as mãos como dois adultos civilizados. Daremos um ou dois abraços e eu voltarei para minha casa. Não posso convidá-lo para tomar um café, porque estou sem gás para esquentar a água.

Sânio, que ainda se mantinha distante, andou em direção a Samir com o braço direito estendido para apertar a mão do outro. A vontade era, ao invés de oferecer a mão aberta para um amigável cumprimento, cerrar o punho e desferir uma violenta bofetada na cara de pau do irmão. Samir, na borda do penhasco, recuou meio passo, o suficiente para que seu calcanhar ficasse suspenso no ar e deixasse que algumas pedrinhas se desprendessem e rolassem pelo despenhadeiro. Desequilibrando-se, Samir impulsionou-se para frente para recuperar o aprumo corporal. Sânio, sem notar o rápido deslocamento do irmão, seguiu em linha reta. Samir ainda tentou puxar o irmão pela manga de sua camisa, mas Sânio precipitou-se no vazio e despencou.

Sânio ainda conseguiu se segurar com os dedos da mão esquerda na beirada do penhasco. Samir que, ao contrário do irmão, jamais pensara em matá-lo, inclinou o corpo para frente para puxá-lo com as duas mãos. Sem que obtivesse nenhum êxito, caindo para trás pelo excesso de força que imprimira na tentativa frustrada, levantou-se e constatou que Sânio, resistindo bravamente, agarrado ao fiapo de vida que lhe restara, ainda lutava contra a morte, dependurado na beira do precipício.

Movido por um irresistível impulso, Samir resolveu ajudá-lo novamente. Porém, dessa vez o ajudou a abreviar seu martírio. Com um estranho sentimento de piedade, Samir chegou o mais perto possível da mão de Sânio, com o corpo ereto, e apenas a cabeça levemente inclinada para baixo, e esmagou os dedos do irmão do mesmo modo que se esmaga uma binga de cigarro, pressionando e arrastando a planta do pé de um lado para o outro. Antes de desabar, Sânio ainda olhou fixamente para os olhos de Samir, de tal modo que seu irmão entendesse que era ele que deveria morrer em seu lugar. Samir ficou só observando o corpo de Sânio se esfarelando contra o rochedo até se esborrachar, já sem vida, no chão de terra batida daquele vale.

Samir levantou a cabeça e perdeu o olhar na imensidão do horizonte. Levou o cigarrinho de palha à boca para a última tragada. A pontinha que restou, apoiou no polegar direito, e com o indicador, deu um peteleco até vê-la cair suavemente, ao contrário da queda monumental do corpo de Sânio. Deu meia volta, e caminhou em direção à casa do irmão. Contornou o ipê amarelo, o lago, e girou a maçaneta da porta.

Antes de entrar, Samir bateu os pés num tapetinho felpudo, em sinal de respeito e se admirou com os dotes estéticos de Sânio. Achou a decoração da casa de muito bom gosto. Só abaixou-se para recolher uma vela quebrada e um cinzeiro de granito que estavam jogados na cerâmica vermelha. Sentiu uma ponta de decepção por aquele descuido. Mas logo afastou qualquer má lembrança do outro e se sentou na poltrona predileta de Sânio para, desfrutando do conforto, recordar alegremente daquele velho e querido irmão.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

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