quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Vulto.














Ao atravessar a esquina de sua casa, ele surgiu. Corpulento, olhar penetrante, assustador. Ficou lá, parado, observando-o fixamente. Ao vê-lo, logo que se deparou com ele, quis gritar, mas acalmou-se a tempo para tentar compreender aquela inusitada presença.

Antes mesmo de tirar qualquer conclusão, precipitou-se em fuga, pois tal encontro estava tornando-se insuportável, sem a menor condição para elaborar essa angústia. Quando minimamente se movimentou para escapar de tal estranho encontro, a aparição repetiu exatamente os mesmos movimentos do fujão. Sem pestanejar, notando o fenômeno que se delineava à sua frente, estancou os passos imediatamente e retomou o contato visual com a obscura criatura.

Chegou ainda mais perto do vulto, tomando coragem, e com isso percebeu que não se tratava de uma sombra, mas sim de uma silhueta colorida e transparente. Estranhou as feições da aparição. Tinha um traço familiar. Ficou com a impressão que conhecia sua fisionomia de algum lugar. Mas de onde? Quem será?

A estranha presença continuava a imitar seus mais insignificantes trejeitos. Tinha uma sintonia fantástica. Parecia que havia treinado e ensaiado seus movimentos com fidelidade, como se todos fossem previsíveis ou mesmo que, sem explicação, já houvessem acontecido num passado próximo ou remoto.

Embora já quase derrotado, sucumbindo diante da enigmática presença, não tendo mais quase nenhuma energia para resistir, conseguiu vencer a hipnose que se exercia sobre ele. Rompeu o campo de força astral que o mantinha prisioneiro. Cortou o que o amarrava ao solo, sua inércia - paralisia psíquica causada pela familiar estranheza -, e começou a sacudir os braços como se estivesse num circo dos horrores.

Espichou o braço esquerdo e tentou tocar o rosto do seu assustador semelhante. Com riqueza de detalhes, o vulto seguiu-o, repetindo simetricamente seu gestual. Ao erguer sua mão, o outro também ergueu a sua, simultaneamente, bloqueando a possibilidade de ter seu rosto tocado. Encontrou apenas a mão do outro. Essa mesma situação ocorreu em todas as demais tentativas de tocar outras partes do corpo do vulto. O levantar de seu braço era seguido com o levantar do braço do outro. Em qualquer parte que tentasse encostar com a mão, só conseguia tocar na mão da criatura. Pensou em fazer diferente. Tentou pegá-lo distraído. Preparou o bote para acertar a barriga do vulto com a cabeça.

Ao dar a cabeçada, movimentando-se repentinamente - antes que o outro ameaçasse antecipá-lo - no mesmo instante o vulto se abaixou e ambos bateram a cabeça uma na outra, testa com testa. Logo se deu conta que era impossível pegá-lo desprevenido. Ele talvez fizesse excelente leitura corporal. Sabia de seus mais finos movimentos de antemão. Não podia bater com uma parte de seu corpo em outra parte do corpo do outro. Só batiam joelho com joelho, cabeça com cabeça, mão com mão, jamais diversificando essa angustiante repetição.

Mesmo já ciente dessas regras que a aparição impôs a ele, uma vibração maligna apoderou-se de sua alma e o obrigou a levar sua mão até a garganta do vulto para apertar seu pescoço. Suspendeu o braço e o levou em direção ao pescoço do vulto - agora sua vítima -, para enforcá-lo. Como não poderia ser de outro modo, o vulto fez exatamente o mesmo percurso com o braço, encontrando-o com o seu próprio.

Frustrado e impotente por mais uma tentativa fracassada, esbugalhou os olhos e lançou um ódio mortal para a aparição. O vulto repetiu o mesmo gesto. Só que dessa vez, ele sentiu-se sufocar, como se estivesse sendo enforcado. Não havia nenhuma mão enlaçando seu pescoço. Ambos estavam com os braços soltos, para baixo. Ensaiou um grito de pavor, mas pela falta de ar, reprimiu a voz. Ficou com os olhos lacrimejando e quase fechados, pela dor do sufocamento. Mas foi o suficiente para ver que o vulto repetia a mesma cena de desespero, com a diferença que esboçava um sorriso, podendo ouvir um som nada modesto de sua risada. Ele não ouvia o som da sua própria voz, mas conseguia escutar os grunhidos de deboche vindos do vulto.

Mesmo sem compreender, começou a sentir que talvez não fosse o vulto que repetisse os seus gestos, mas ao contrário, inversamente, fosse ele próprio que repetisse os gestos do vulto. Ele era secundário em sua relação. Seus gestos nada tinham de espontâneos. Talvez ele fosse controlado por linhas invisíveis. Um boneco de marionete comandado pela habilidosa e perversa mente do vulto.

Como isso tudo acontecera justamente no horário comercial, os pedestres que caminhavam pela calçada, em sua direção, ao se confrontarem com a performance nada convencional do tal cidadão, no meio da rua, espantavam-se, e se desviavam de suas rotas apavorados. Ele, por sua vez, mergulhado em sua devastadora visão, imaginava-se sozinho, sem dar a mínima atenção à multidão que incessantemente passava por ali.

Um dos transeuntes, ao invés de desviar como a maioria, sem temer aquilo que parecia um verdadeiro ritual macabro, aproximou-se e o abordou, dizendo:

- O que está fazendo? Está tudo bem com o senhor?

Pela ausência de resposta, mas sem desistir da abordagem, continuou:

- Talvez precise de ajuda... Quer que eu o ajude?

Novamente, silêncio total. Ele ignorava a presença da pessoa que, solícita, oferecia-lhe ajuda.

Antes de ir embora, a pessoa que insistia em se demorar por ali, ainda perguntou com quem ele estava falando. Afirmou que não havia mais ninguém conversando com ele além dela. Tentou convencê-lo que não tinha ninguém à frente dele. Mas tudo em vão. Ele não via nem ouvia a pessoa que lhe oferecia ajuda.

Ela então, percebendo ser ignorada, deu marcha ré, desviando-se dele, e seguiu seu destino. Mas ainda sem se despir de suas últimas gotas de caridade, avaliou a possibilidade de telefonar para a viatura dos bombeiros e informar-lhes que havia um homem falando sozinho diante da vitrine de uma loja em plena Avenida Nossa Senhora.


ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS

8 comentários:

Patricia Carneiro. disse...

Interessante!
Muito bom mesmo!
Você escreve muito bem. Parabéns! :)

Hugo Green disse...

Prendeu a minha atenção.
Gostei muito do conto
Muito bom mesmo.
Abraço.

http://bloghugogreen.blogspot.com

M!sunderstood disse...

Prende a atenção do inicio ao fim. Adoro contos de suspense, e o seu me surpreendeu.

Muito bom mesmo.

Um beijo.

Misunderstood

Lucyano Jorge disse...

Alex, primeiramente gostaria de expressar minha grande admiração por você, fico extremamente feliz quando vejo algum comentário sem em meu blog.
Sobre o vulto, redigido de forma magistral, acredito que seja quando alguém não se enxerga totalmente, passamos muito tempo observando os outros, mas nossos passos muitos vezes vão sem rumo, pois seguir é o mais importante do que caminhar. Quando necessitamos de ajuda muitas vezes acabamos não aceitando, pois não percebemos o quanto precisamos dos outros.

Forte abraço amigo!!!

http://cinemaparceirodaeducacao.blogspot.com/

Kely Magalhães disse...

Muito bom o texto. É um dos poucos textos que me prendeu atenção nessa merda de internet. =D

Guilherme Augusto disse...

Belo texto... uma ótima escrita...

Macaco Pipi disse...

AINDA ESPERO QUE VC FAÇA UM FILME :D
AEHHAE
SÉRIO!

Sebastião Soares disse...

Mais um texto maravilhosamente escrito, embora admita ter ficado um pouco confuso. Um homem confrontando a sua imagem, ou melhor, a si mesmo. Tendo insucessos nessas confrontações.

De qualquer modo parabéns pelos contos.

Abraço