sábado, 1 de janeiro de 2011

O Montinho de Livros.
















Em meio àquelas incontáveis estantes da histórica biblioteca do vilarejo, pouco visitada pela escassa população de seus arredores, havia uma série de livros envelhecidos empilhada no piso frio. Eles ficavam lá porque seus títulos e aparências não se encaixavam nos dignos catálogos que garantiriam um lugar privativo em uma das reverentes prateleiras. Enfileirados, rabugentos, os livros que foram catalogados pela precisão cirúrgica da bibliotecária, únicos existentes, expunham a tez soturna dos distintos senhores que observam por cima dos óculos dando suas nobres atenções como esmola aos iletrados.

Todas as manhãs, tardes e noites, durante um período considerável de sua meninice, um jovem lia sentado à mesa ao lado da pilha de livros rejeitados. Escolheu aquele exato lugar, pois o peculiar montinho de livros exercia sobre ele um verdadeiro fascínio. Parecia que ao invés de possuí-los com o olhar, eram eles que o vigiavam, seguindo minuciosamente seus movimentos enquanto lia. Aquela sensação de ser visto, acompanhada por fixos e penetrantes olhinhos de capas duras, invadia-o tenazmente.

Silenciosas presenças ali se remexiam, anunciando que o jovem leitor não estava só. Uma desagradável comichão subia-lhe pela espinha nas linhas e frases que mais requeriam sua atenção. Justamente nos momentos de maior suspense do romance era obrigado a interromper a leitura, pois um certeiro peteleco atingia-lhe a orelha. Mesmo com tantas esquisitices, uma atraente e irreconhecível força o mantinha colado àquela cadeira de estudos.

Desde a primeira vez que chegou àquela biblioteca, vindo de uma região vizinha desprovida de livros, ficou perplexo diante de tão deslumbrante cenário aberto aos seus olhos. Monumentais acervos, vastíssimas coleções, grande quantidade de exemplares disponíveis. Aquilo tudo era tão inacreditável que a realidade se tornara fugidia, irrequieta, teimando em escorregar até se esconder em passos macios. Para manter os pés no chão, pediria a um colega que o beliscasse, numa tentativa frustrada de confirmar a existência das coisas, pois não havia outra mão que fizesse tal serviço doloroso.

O salão principal no qual os autores de relevo e as pioneiras encadernações se dispunham em paralelas sincronias matemáticas, com impecável iluminação e ornamentação artística, ainda assim não foi capaz de oferecer acomodação satisfatória ao ilustre visitante ávido por leituras. Ele se deteve por alguns instantes no convidativo salão, esfregou a vista por causa da imensa claridade, passou os olhos pelas estantes abarrotadas de edições luxuosas, mas não sentiu vontade de tocá-las, pois não foi também tocado por elas.

Continuou sua caminhada pelos diversos recintos da biblioteca, mas após retornar ao salão principal, pôde avistar uma pequenina porta ao fundo. Chegando mais perto daquela enigmática moldura, o jovem notou a existência de minúsculos entalhes na madeira, sutis trabalhos de xilogravura noticiando a inspiração de cuidadosos e ágeis artesões que lá depositaram suas elegantes fantasias.

Ao girar a maçaneta, avalanches e redemoinhos metafísicos invadiram seus arquivos mentais, explorando nostalgias guardadas a sete chaves. O jovem leitor foi coberto até a alma por finas camadas intercaladas de seda e de cetim, transmitindo a suavidade de jardins floridos. Uma alegria feroz e diáfana, voraz e lírica, percorreu-o até as pontas dos dedos. Foi conduzido vagarosamente por formas vibráteis e miríades de texturas envolventes e sedutoras. Uma leve fumaça vendou-lhe os olhos, levantou-lhe o cético corpo e, flutuando, adormecido, deslizou até a mesa de estudos ao lado dos poeirentos e esquecidos livros empilhados no chão.

Quando despertou, o jovem surpreendeu-se por estar bem acomodado a uma simples e envelhecida mesinha de leituras. Diferente do aristocrático ambiente do salão central, no qual as disposições das estantes, a galeria de artes nos corredores e a não menos requintada iluminação lembravam estúdios cinematográficos ou palácios reais, aquele recinto em que repousava à mesa, tinha um aspecto rústico, lúgubre, sombrio. A luz para a leitura se resumia apenas a um basculante na parede lateral e a um frágil abajur em cima da mesma mesinha à qual repousava.

Aquele seria o lugar ideal para ler em silêncio, com paz e tranquilidade – pensou o jovem com inegável positividade. Apesar de belíssimo, o salão principal era demasiado entediante e enfadonho. Aquele excesso de luz e de decorações milimetricamente organizadas formava uma atmosfera tão asséptica e fria, que não convidava à vivacidade e ao desejo caótico que as aventuras e desventuras literárias exigiam. Ao contrário, a salinha em que o jovem se demorava devaneando era perfeita. Aqueles livros bolorentos e inchados de tão usados, lidos e relidos, exibiam espectros e sombras das profusões de seus personagens. Apresentavam indeléveis traços, folhas soltas, rasgões, capas furadas, mancos, banguelas, mas sempre mantendo intactos os conteúdos e essências mirabolantes.

Os livros arrumados em seções assimétricas da peculiar salinha em que o jovem se encontrava, não eram escritos com tintas de canetas, penas, máquinas de datilografar ou impressões de computador. As letras saltavam aos olhos, em texturas de altos relevos, costuradas e bordadas por folclóricas agulhas de exímios alfaiates; alicerçadas por míticas espátulas de indômitos pedreiros; arrematadas e desbastadas por esgrimistas de primeira qualidade.

Compondo a exótica paisagem, o modesto e irregular montículo de livros, ao lado do inveterado leitor, mesmo de aparência grotesca, embevecia a quem já estivesse naufragado na fluidez dos afetos mais primários. Regredidas e intransferíveis afetações. Não nocivas, mas também não inofensivas. Afetos inflamados, produtores de fendas e rachaduras nos frágeis e vaidosos sentimentos daqueles que ensaiavam um contato, mesmo que de longe, com os enfermos livros abandonados pelos padrões da ordem econômica da biblioteca. Mas que pobre alma ousaria se aproximar de tais asquerosas criaturas? Emplastros danosos que nem ao menos conseguiram uma reserva nas estantes destinadas aos livros bolorentos, quase estragados, aguardando aflitos e ansiosos as infindáveis restaurações.

O jovem leitor praticamente aderido à mesa de estudos devorou quase a totalidade dos exemplares classificados nas estantes da saleta. Todavia, aquelas impronunciáveis e malditas brochuras ensebadas, companhias inseparáveis do rapaz que sonhava em vigília, largadas sobre o piso frio, permaneciam intocadas. Embora o contato físico jamais tenha ocorrido, sempre redundando em absoluto fracasso as inúmeras tentativas para que o ato se consumasse, a desprezada pilha de livros exercia uma singular corrente vibratória que algemava o leitor em sugestões e influências múltiplas.

Havia uma barreira intransponível na relação livro/leitor, mantendo-a sob o regime de um enrijecido cordão de isolamento. Aqueles livros pareciam seres sobrenaturais, uma manifestação peculiar de vida extraterrena. Era impossível para alguém enraizado em tal circunstância, aproximar-se o suficiente daqueles seres encapados, para abri-los. Invisíveis e sólidas carapaças de criaturas oníricas, de paradisíacos cenários, de habitantes abomináveis e fascinantes, compunham o múltiplo universo das letras. Os paradoxos transbordavam por entre os afinados dedos que folheavam com desenvoltura as páginas amarelecidas por tantos fôlegos reprimidos - pelos suores em suspenso.

O jovem começou a duvidar se aqueles livros alguma vez foram realmente abertos. Talvez nem livros fossem. Por que tantos mistérios e segredos circundavam aquele envelhecido montículo de livros? Poderia ser uma ilusão de ótica, uma pintura surrealista, camuflagens, mimetismos...

As referências plausíveis, preservando sua sanidade, já haviam se esgotado. Não queria se dispersar da hipnótica leitura que o consumia esfomeada, perdendo-se em deduções racionais. Um irresistível impulso o dominava. Não poderia se ausentar daquela sala nem ao menos para se dobrar sobre suas necessidades básicas. Estava consolidado à mesa, observado sem interrupção por seus adoradores livros empilhados ao lado, ali jogados, no piso frio.

No início, ainda sob um ritmo intermitente, conscientizava-se de sua condição sonâmbula. Mas as perdas de consciência nas quais se emaranhava por longos períodos, pouco a pouco ficaram irreversíveis, e o jovem mergulhado na trama ficcional, com aspecto de crisálida, foi metamorfoseando lentamente até se tornar uma personagem fantasiosa, morrendo no mundo real e adquirindo um tipo de vida contornada por sua silenciosa e cadenciada narração.

Estampado numa das páginas de sua formidável leitura, já do outro lado de quem lê, pôde ver sua face compenetrada, semblante pesaroso, testa franzida, rugas esboçando uma melancólica fixação, nitidamente capturado pelo mundo de letras e tintas. As comichões e petelecos perseveraram incessantes e indomáveis. Seu corpo jazia imóvel e absorto no instante no qual, sem desviar, ainda concentrado na leitura, renascia como personagem desenhada pela pena de algum desatento e sonolento escritor.

O corpo continuava lá, estático, enraizado em cada parágrafo, linha e estrofe da narrativa, enquanto o jovem, tonto e enjoado, como personagem da ficção, percorria os cenários compostos por fantasias diurnas. Foi nesse contexto, regado pelos mares do absurdo, que uma gigantesca mão solitária usando luvas de pelica surpreendeu-o ao se inclinar sobre o livro, apoiando-se ruidosamente na mesinha, sem que o antigo corpo do jovem colado à cadeira sequer notasse a imensa presença daquela misteriosa mão.

Ela portava uma avantajada e rústica lupa de dimensões irregulares, com o aro torto, possivelmente vítima de uma queda. Posicionou-a em direção ao jovem, agora na pele da personagem de uma estória, exatamente na página 62, terceiro parágrafo, em que ele apareceu pela primeira vez na ficção. Naquela precisa página, o jovem renascia na estória, originava-se.

A lupa condensou suficiente calor, projetando-o nas tintas do parágrafo inaugural. O aglomerado de letras no qual a jovem personagem estava contida começou a derreter freneticamente. Os textos escritos não mais sustentaram nenhum laço de lógica ou de razão. O livro passou apenas a apresentar páginas chamuscadas e manchadas nas quais antes estavam conectadas indeléveis semânticas.

Numa curiosa agitação, o montinho de livros esquecidos no chão, por não se classificar em nenhum gênero nas estantes da biblioteca, ergueu-se em espirais enérgicos, levitando, flutuando. Abriram as espessas couraças pestilentas, exibindo intimamente seu conteúdo. As capas uniram-se às contra capas, formando as silhuetas de arrojadas asas batendo em sincronia com seus patrícios. A ventania desfolhou-os com tanta violência que suas desnudadas páginas ficaram à mostra. Foi aí que aquele corpo apático recuperou a tenacidade e foi subitamente preenchido pela essência do jovem que retornou do livro pelo calor da lupa.

O jovem olhou admirado para as páginas despidas que se expunham à sua frente. Não havia qualquer mísera linha escrita. Estava tudo submerso na gelada cor branca. Aquela falta de imagem, de ilustração, de palavras, um extenso deserto do Nada oferecido como nauseante espetáculo aos seus lacerados olhos, consumiu-o em profunda e relutante angústia. Um convite à reflexão. Irredutível verdade. Não mais teria forças para se alienar às letras bem acabadas de suas apaixonantes literaturas.

Os livros que não se encaixavam nos dignos catálogos da biblioteca eram apenas seus, de mais ninguém. Suas inúmeras páginas em branco representavam a sua vida. O jovem leitor, pulsando no vazio, “tabula rasa”, preenchia-as com as linhas sinuosas de sua singular vivência, de sua história livre, nos livros - Sua alma.

CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

21 comentários:

Sebastião Soares disse...

O livro não pode ser observado superficialmente, ao olho nu, sob uma perspectiva exata. Mas sim como algo mágico, um refúgio surreal alimentado com as despretensiosas lentes da imaginação.

Texto maravilhoso

Um Abraço e parabéns pelo blog!

Alex Azevedo Dias disse...

Prezado Sebastião, agradeço suas gentis palavras. Volte sempre! Eu, acredito que uma estória só adquire vida quando há uma "elaboração secundária", quando os leitores a interpretam, mobilizando-a, reescrevendo-a. Os leitores são os segundos autores. Grande abraço...

Victor Von Serran disse...

um livro de paginas em branco....em que vc escreve sua propria historia....interessante

http://universovonserran.blogspot.com - Especial ano novo - Ao caminhar na tempestade

SIGO E COMENTO QUEM SEGUIR E COMENTAR

Rebeca Youssef disse...

Gostei daqui, até senti cheirinho de livro velho! Parabéns :)

Alex Azevedo Dias disse...

Victor, obrigado por ter colaborado em escrever a história deste blog. Rebeca, seja bem vinda ao lar! Abraços...

Everaldo Ygor disse...

Olá, uma bela viagem ao interior das linhas, da alma da literatura...
Ao ler e reler com mais atenção, o leitor atento vai identificando a sua própria história, mas é preciso apreciar os livros e isso é só para os raros...
Abraços
Saudações Poéticas
Parabéns!

Alex Azevedo Dias disse...

Agradeço a leitura, Everaldo. Abraços.

Rebeca Youssef disse...

Ah, estou seguindo seu blog! Abraço! :)

Victor Von Serran disse...

Alex.

Percebi que vc pode ser um fabuloso amigo de blogosfera...

isso sem falar no conteudo do blog.

seu comentario no meu blog foi brilhante e o mais proximo do que eu queria quando postei o texto.

apenas obrigado por compreender !

abraço.

http://universovonserran.blogspot.com/

blog premiado e indicado pelo jornal destak

sigo e comento quem seguir e comentar

Nathacha disse...

Um livro e como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem.
Kahlil Gibran
Muito bom

Sandro Mangueirense disse...

Nossa, o que começa como um simples conto, tem um desfecho espetacular... É uma reflexão forte, profunda, seguida de uma narrativa muito bem elaborada! Parabéns, um texto de altíssima qualidade, e no final, uma "moral da história" ,por assim dizer, espetacular!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Rafa disse...

UM livro nunca pode ser concebido de modo superfivial, jamais! Gostei do texto, tem particularidades, foge do senso comum

http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/2011/01/maldicao-do-amor-outra-face-da-logica.html

Luciano Castro disse...

excelente texto,
entrarei mais vezes para ler com mais calma,,, parabens pelo blog e muito sucesso

barbaranonato disse...

Texto de qualidade absurda, que nos remete não somente à refletir como também à possibilidade de alterar conceitos de vida. Esse nosso livro pode ser o que quisermos e ter a diretriz que dermos a ele. Sensacional!

barbaranonato disse...

Passando rapidamente somente para agradecer os elogios que fez ao meu conto. É muito importante esse tipo de incentivo pra mim. Obrigada.

Alex Azevedo Dias disse...

Muito agradecido, amigos!

Amanda Dias disse...

' Maravilhoso texto, muito bem compreesível. Muito bom!

Vanessa Souza Moraes disse...

Livros são uma ótima maneira de preencher a alma.

Bacana ter encontrado seu blog. São poucos os que trazem psicanálise. Estou seguindo-o e vou colocar o link do seu blog no meu.

Abraço,
Vanessa

http://vemcaluisa.blogspot.com/

Arianne Carla disse...

Alex, obrigada pelo ilustríssimo comentário no meu blog. Fiquei muito lisonjeada pela análise que fizeste do mesmo, comentários assim sempre nos motivam cada vez mais. rs
Pra mim o livro são almas imortalizadas dos autores, eles desejariam ser lidos e incompreendidos ou entendidos, mas como dizia Clarice: 'Creio que me entender não seja questão de inteligência e sim de sentir.' Pelo menos pra mim, esta é a frase mais ligada ao meu blogs.

Adorei a citação no comentário sobre Saramago!

Guilherme Lombardi disse...

Interessante o tema do blog, os livros podem alimentar nossos espiritos e pensamentos.

Pedro disse...

Gostei do texto.
Muito bom, por sinal.
Parabéns!