terça-feira, 17 de setembro de 2013

Devastação: Uma Família.






Devastação: Uma Família.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a mãe assistia à novela esparramada no sofá da sala, Samanta entrou sorrateiramente. Amarrou a blusinha na altura do umbigo, maquiou-se, colocou uma saia rodada abaixo da cintura encontrada no armário da mãe - que, de tão grande, arrastava no chão -, pôs um avental, a fralda descartável do seu irmãozinho recém-nascido na cabeça e se sacolejou freneticamente diante da TV.

Haidê, perante a cena que julgou extravagante, levantou-se com fúria, agarrou a filha pelo braço, deixando-lhe marcas vermelhas pela pressão dos dedos na pele branca, e, com o dedo em riste, ordenou que se limpasse, voltasse para seu quarto e que de lá não saísse até o término de sua novela. A menina, confusa, engoliu o choro que lhe fustigava os olhos, franziu o cenho, expressando uma leve agonia e se retirou. Ainda ouvindo algo que interpretou como um soluço baixinho, Haidê berrou da sala para que Samanta parasse imediatamente de soluçar, ameaçando ir até seu quarto lhe dar uma surra com o cinto do seu pai.

Afrânio, pai de Samanta, apareceu na sala com ares de tensão e pediu calma à mulher. Disse que não compreendia o incômodo que a filha lhe causava. Queixou-se dos maus-tratos dispensados à menina de apenas sete anos. Haidê, endereçando ao marido um olhar severo, comentou que apenas a protegia do mundo machista. Afirmou que não aceitava que Samanta fosse vista pelos vizinhos como desfrutável e oferecida. E ainda condenou a educação que Afrânio dava à filha, exigindo que ele não fosse permissivo para não fazer de Samanta uma potencial prostituta. O pai acatou as cobranças de Haidê, esfregou a toalhinha em seu rosto, enxugando-o por causa da barba que acabara de fazer. Voltou ao banheiro, arrumou a bagunça criada pelos asseios noturnos e se sentou ao lado da mulher no sofá, aconchegando-se.

Quando a novela acabou, Haidê se retirou em direção ao quarto de casal. Amamentou o pequeno Lucas, colocando-o em seguida para arrotar. Embalou o bebê, balbuciando uma canção de ninar e, carinhosamente o devolveu ao berço. Foi ao banheiro do quarto, tomou um banho demorado, pôs o pijama e foi se deitar, chamando o marido para ir dormir também. Afrânio permaneceu por mais algum tempo sentado no sofá, remoendo alguns pensamentos que insistiam em não abandoná-lo. Antes de ir se deitar, desviou o percurso, indo antes ao quarto da filha. Já estava com a luz apagada.

O pai abriu a porta que estava encostada, caminhou silenciosamente para não acordar Samanta, ajeitou-lhe os lençóis e lhe beijou a testa ao se certificar que os olhinhos da filha permaneciam fechados. Após Afrânio ter saído e encostado a porta novamente, Samanta abriu os olhos, acendeu a luz fraquinha do abajur, sentou-se - apoiando as costas no encosto da cama -, e deixou que uma lágrima escorresse até os lábios, ainda com um restinho de batom.

Aos quatorze anos, Samanta sonhava com a magia de uma grande feste de debutante. Haidê havia lhe prometido alugar um salão, contratar um buffet especial e confeccionar um belo vestidinho rosa para que ela flutuasse durante a valsa. Às vésperas de completar quinze anos, Samanta já tinha distribuído a maioria dos convites para uma quantidade seleta de convidados, quando seu pai a chamou para que conversassem no canto da sala. Afrânio, com certa dificuldade para se expressar, numa desconfortável gagueira e transpiração desagradável - afrouxando o colarinho com frequência para melhor deglutir o excesso de saliva -, comunicou à filha que a renda doméstica não fora suficiente para arcar com as despesas da festa. Os olhos da filha umedeceram, deixando que algumas gotinhas transbordassem.

As lágrimas escorregaram para as maçãs do rosto, depositando-se no queixo, para que, concluindo a jornada, caíssem no granito desbotado. O dia do seu aniversário foi um dia normal, como outro qualquer. Apenas à noite, quando foi à cozinha comer biscoitos e tomar um copo de leite, viu que a mesa estava posta. Havia uma toalhinha simples, uma garrafa de refrigerante, alguns copos, manteiga e pão. Avistou aquilo tudo com certa frustração. Quando já estava de saída, a mãe entrou com um bolinho e velas acesas, formando o número quinze. Samanta forçou a saída, tentando se desvencilhar da mãe, mas Haidê a segurou e a faz se sentar à mesa. Seu pai apareceu na cozinha com Lucas, já com sete anos no colo, batendo palmas e cantando parabéns.

Logo depois da cantoria, Haidê tirou as velinhas e, munindo-se de uma espátula, cortou a primeira fatia do bolo e a deu para Lucas. Em seguida ofereceu a segunda fatia para Afrânio. Cortou a terceira fatia, sentou-se e começou a comer. Samanta se virou para a mãe e, emburrada, perguntou se ela não a serviria. Haidê fulminou a filha com o olhar e disse que ela a criou saudável, com pés e mãos no lugar. Argumentou que por causa disso, a filha poderia muito bem cortar a própria fatia de bolo. Impulsionando o corpo com as pernas, Samanta arrastou a cadeira no chão, fazendo um barulho estridente, levantou-se com violência e foi para o quarto sem dizer nenhuma palavra.

Haidê olhou para Afrânio, apontou em direção à porta da cozinha, balançou a faquinha do bolo no alto, com o braço esticado, e vociferou aos quatro ventos o ódio que sentia daquela filha ingrata e desnaturada. Quase dois meses depois do seu aniversário de quinze anos, Lucas completou oito. Seis pais, satisfeitos com aquela data especial, cobriram o filho de mimos e presentes. Ao entardecer, vários convidados apareceram. Bexigas de gás coloridas enfeitavam a sala. Salgadinhos diversos, cachorros quentes, pipocas e refrigerantes eram ofertados aos convidados com entusiasmo. Samanta, revoltada, trancou-se em seu quarto e de lá só saiu quando o último convidado se despediu.

Quando estava com dezenove anos, Samanta se preparava para se mudar da casa dos pais. Inscreveu-se para uma faculdade rural, distante dali. Estudou muito, passou no vestibular e se matriculou no curso de veterinária. Como sempre fora uma aluna exemplar, juntou um dinheirinho com as aulas particulares que ela dava a seus colegas. Nunca contou aos seus pais sobre essa atividade que exerceu ao longo de três anos, temendo ser duramente reprimida, principalmente pela mãe. Seu pai a ajudara a escolher o apartamento, comprometendo-se a contribuir com o dinheiro do aluguel. Mas, aprendendo a não confiar nas promessas feitas por seus pais, tratou de se antecipar e arranjou um emprego para cuidar das crianças numa pequena escola da região para a qual se mudaria.

No dia em que arrumava suas bagagens, deixou em cima da cama, esticados para passá-los, os melhores vestidos, separando-os das roupas mais simples. Samanta foi à área de serviço buscar um ferro de passar roupas. Quando voltou ao quarto, encontrou seus vestidos rasgados. No exato instante em que visualizou tal aberração, levou a mão ao peito, sobressaltada, e deixou escapar um gemido em desabafo. Ao olhar para o canto do quarto, viu Lucas, já com quase doze anos, abaixado, prendendo o riso de deboche, segurando uma tesoura prateada de cabeleireiro. Inconformada, bufou de ódio e pulou em cima do irmão.

Já com a visão turva pela embriaguez da exaltação, desferiu um tapa no rosto de Lucas e lhe tomou a tesoura. Segurando o instrumento cortante com firmeza, avançou de encontro ao irmão, ameaçando-o de perfurá-lo. Lucas gritou pela mãe. Haidê surgiu rapidamente, impondo com agressividade que Samanta soltasse a tesoura, acusando-a de querer matar seu filhinho. Samanta se virou em direção â mãe, apertou mais o cabo da tesoura e, resistindo aos protestos da mãe, inclusive se alimentando deles, saltou, segurando a tesoura com o braço para o alto. Quando a filha chegou com o objeto pontiagudo perto do pescoço da mãe, Haidê a agarrou pelo pulso. Samanta a olhou nos olhos e logo relaxou os dedos com os quais pressionara a tesoura.

A palma de sua mão já apresentava vermelhidão de tanto ter comprimido o instrumento. Ela, instintivamente, deixou que a tesoura caísse no chão. Quando Haidê, contraindo a face, irascível, virou as costas da mão para lhe dar uma bofetada, foi a vez de Samanta segurar a mãe pelo pulso e impedir o golpe. Raivosa por ter sido desafiada, tentou golpeá-la com a outra mão. Novamente Samanta se defendeu. Quando a mãe tentou se esquivar das mãos que lhe apertavam cada vez mais seus pulsos, Samanta a soltou para acertar em cheio, com toda força, um tabefe na face esquerda da mãe. Haidê se curvou, levou a mão à face atingida, endireitou-se e arregalou os olhos, incrédula, em direção à filha. Samanta, raivosa, vomitou todas as palavras que há anos permaneceram entaladas em sua garganta:

- Você nunca me amou. Eu sempre fui maltratada por você. Mas fique sossegada, eu só não te odeio porque você não é digna do meu ódio. Meu pai, aquele banana sem atitude, a merece. Vocês se completam. São um casal detestável: a megera, a serpente e o ratinho débil com o qual se alimenta. Você devora tudo a sua volta. Você só não me destruiu porque eu sou mais forte. Tive coragem, sei me virar sozinha. E vou além: para o meu bem, é necessário que eu decida a minha própria vida. Antes só do que mal acompanhada, ensina o ditado famoso. Deem tudo para a peste do Lucas. Mimado, malcriado. Vocês ainda sofrerão muito nas mãos desse moleque.

Após a última frase, Samanta pegou uma pequena mala com documentos e pertences, girou a maçaneta, abriu a porta e deixou que batesse com violência às suas costas. Foi embora sem se despedir nem olhar para trás. Todos ficaram atônitos, sem reação, e não tentaram impedi-la de sair.

Durante os primeiros meses, Afrânio depositou dinheiro na conta da filha, ajudando-a com as despesas. Após esse período, alegando rombo no orçamento doméstico, cortou gastos desnecessários, incluindo Samanta. Nunca mais recebera um tostão furado. Mas, com os esforços pessoais, sobressaiu-se na faculdade e logo conciliou uma bolsa de pesquisa com o trabalho no colégio que arrumara antes de viajar, além de ter conquistado um estágio remunerado num haras local de puros-sangues. Conseguiu manter o aluguel do imóvel, montando-o do jeito que idealizara.

Mais tarde, considerando-a uma boa moça e pretendendo vender o apartamento, o proprietário combinou uma maneira de que ela adquirisse o imóvel com o suporte de uma financiadora, passando-o então para o seu nome. Somente nas primeiras férias de final de ano, Samanta visitou os seus pais. Mas a tensão naquela casa era tão insuportável que nunca mais voltou.

Fixou residência definitiva na cidade de seu curso universitário. Ao se formar, já estava com emprego garantido para exercer sua profissão no haras no qual estagiou. Abriu também uma clínica em sociedade com um colega. Logo se casaram e tiveram uma filhinha. Sua vida se estabeleceu, cresceu, multiplicou-se. Vivera feliz, apesar de que seus pais e seu irmão jamais lhe fizessem uma única visita.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

sábado, 14 de setembro de 2013

Amor Espelhado.







Amor Espelhado.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Sentada na beirada da cama, Leila avaliou o espelho retangular encostado na parede. Meses se passaram e ele ficara lá, jogado de lado. Era o objeto dos seus sonhos. Mandara fazer sob medida. Poucos dias antes daquele desaparecimento, sem que soubesse, estava no auge da felicidade. Queria se ver por inteira, abraçada ao seu amor, diariamente, quando se levantasse pelas manhãs, após as sempre memoráveis noites de sono ao lado de Lipe.

Os dois foram à vidraçaria, escolheram um espelho resistente, porém delicado, que refletisse a imagem com exatidão, sem que engordasse nem emagrecesse. No comprimento, cortaram vinte centímetros além da altura de Leila para que Lipe coubesse atrás, de pé, envolvendo-a com seus longos e afetuosos braços. De largura, um pouco mais de meio metro já seria de bom tamanho. Enquanto Lipe se encarregava de negociar as dimensões ideais com o vidraceiro, Leila foi a uma loja especializada em quadros e combinou que montassem no espelho uma moldura de jacarandá, entalhada, com um detalhe folheado a ouro. Era tudo o que ela mais queria.

Depois que a preparação foi concluída, levaram a estimada peça, com cuidado, para casa. Para que o espelho fosse colocado com segurança, precisava de uma armação apropriada. Na véspera do objeto de desejo ser colocado em seu devido lugar, Leila soube, por uma antiga amiga, que Lipe se acidentara numa autoestrada, bem próximo ao seu trabalho. O acidente que o vitimou fora fatal. Leila não deu nenhuma resposta à amiga. Permaneceu por alguns segundos, estática, segurando o fone enquanto a outra a chamava pelo nome em vão do outro lado da linha. Com os olhos fixos no nada, foi se encolhendo na cama. Suas mãos se abriram vagarosamente até que o fone escorregasse pelos seus dedos e batesse mudo, no carpete do quarto.

À noite, após o triste episódio, Leila se deitou no vazio. A falta de Lipe derrubara uma lágrima dos olhos da mulher que se recusava a olhar para a realidade. Por quase uma semana, ela não saiu da cama. Abandonou-se à sombra deixada pela ausência do amado. Antes, pés e mãos reprimidos, corpo tenso, deitada de lado, quase na posição fetal, manteve-se em silêncio absoluto, com olhos bem abertos, sem conciliar o sono. Depois, entregando-se à tontura cruel, foi ajeitando-se para o meio da cama até adormecer no lado de Lipe, ainda aquecido pelos fantasmas da falta que a perseguiam.

Naquele dia, pôs finalmente o espelho na parede. Com um vestido preto, longo, de gola canoa, tecido fino que Lipe a presenteara no primeiro ano do matrimônio, Leila a contemplou em frente ao espelho. Deixou por algum tempo seus cabelos presos, com apenas algumas mechas flutuando em liberdade, até soltá-los totalmente. Quase não conseguiu vê-la. Seus olhos, teimosamente, deslizaram-se para os vinte centímetros que celebravam a crueldade de um sumiço irreparável. As cortinas da janela, entreabertas, balançavam pela fresta de vento. Olhou para as finas alças que deixavam seus ombros desnudos e abaixou uma a uma até que as alças escorregassem por toda a extensão dos seus braços. Sem as tiras de pano que o sustentavam no corpo de Leila, o vestido desceu até cair embolado sobre seus pés.

A palidez e a magreza não eram defeito da superfície espelhada. O objeto dos sonhos transmitira a mais perfeita imagem. Mas agora, enegrecido pela saudade, Leila observava apenas o seu desamparo. Deu um passo para trás, dobrou os cotovelos às costas, e desprendeu o sutiã. Retirou suas alças e o arremessou à cesta de roupas esquecidas. Seus seios de boa proporção e bem delineados perderam a densidade. Sentia-os somente ao serem apalpados pelas fervorosas mãos de Lipe. Envolvia-os por completo até enrijecerem pelo calor erótico. Sem suas mãos, esmoreciam, perdendo a vitalidade e o frescor.

Leila levou o dedo indicador à boca e o umedeceu com a língua. Em movimento circular, suavemente, acariciou os mamilos. Soltou um gemido, em homenagem ao prazer perdido. Depois, levantou os seios e espalmou as costelas proeminentes. Deu um passo à frente e se desvencilhou da calcinha rendada vinda de um passado que ela resistia em recordar. Nesse instante, sentiu uma mão masculina separando suas pernas e tocando seus pelos pubianos. Um esgar de excitação crispou seus dedos sobre a mão do homem à altura do seu sexo. Instintivamente fechou os olhos. Era Lipe. Visualizou todos os detalhes daquele corpo amado. Entregou-se ao prazer. Os vinte centímetros se preencheram com beijos e tremores.

Ao abrir os olhos, não se sentiu só. O espelho continuou encostado na parede, fora do lugar, virado ao contrário. Leila esticou um dos braços para sentir Lipe, mas tocara nos lençóis amassados. Mas o calor do seu corpo não deixara sua cama. Uma força incontrolável a fez se jogar de bruços sobre o lado quente do amado. A ausência de Lipe não mais o apresentava no íntimo de Leila. Era sua presença indelével, pegadas sublimes do amor, que se ausentara de dentro daquela casa para viver no eterno abismo de sua alma.

*

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Brincando com Fogo.








Brincando com fogo.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Riscou um fósforo. O aroma das tábuas o fascinava. Curvou-se em reverência. A falta de luz chegara num bom momento. Já há algum tempo observava, pelo olho mágico, a movimentação da mudança. Sua porta quase toda comida por cupins dava um toque contraditório aos riquíssimos móveis que saíam do apartamento vizinho. Os moradores de frente encaixotavam seus pertences para levá-los à nova residência. Inúmeras caixas de papelão o tiravam do sério com frequência.

Os entendidos diziam que Osmar tinha fetiche por celulose. Mas ele negava tais afirmações. Afinal, os livros não lhe causavam tanta atração. Pelos móveis, tinha verdadeira adoração. Outros, talvez com menos conhecimento do assunto, insistiam em dizer que Osmar era piromaníaco. Ele odiava essa palavra. Não tinha instinto incendiário. O que o satisfazia mesmo eram os estalos da madeira retorcendo pelo fogo. Elementos naturalmente inflamáveis não lhe interessavam.

Combustíveis em geral não possuíam a menor graça. Não que fosse um protetor das plantinhas indefesas, mas muito lhe doía a mortandade dos vegetais. Não admitia que tantas árvores fossem derrubadas, florestas devastadas, desmatamentos a torto e a direito, tudo isso para melhor reconfortar a preguiçosa humanidade. Osmar não se sentia um compulsivo. Não gostava de queimar as coisas sem justa causa. Só queimava celulose. Ele não matava as árvores, apenas botava fogo no que já estava morto.

Ateava fogo aos cadáveres das pobres plantas, usadas para servir as donas de casa - verdadeiras assassinas. O cheiro da madeira, principalmente as maciças, inebriava Osmar. Detestava compensado - madeira moída e prensada. Não queimava compensados, apenas os levava para sua casinha de campo e os enterrava no quintal para que apodrecessem. Ele não resistia à fragrância celulósica. Nas artes plásticas, amava a natureza morta não pela pintura na tela, mas pelas madeiras que emolduram a maioria dos quadros.

Quando sua mãe bateu as botas, Osmar tentou de tudo para sepultá-la com a dignidade que merecia. Pesquisou a madeira que seria a mais indicada para o caixão de uma senhora ilustre. Ficou entre o cedro e a cerejeira. Mas, por ironia do destino, sua mãe chegara ao velório num caixão de plástico. O argumento dado, foi que o tal plástico era ecologicamente correto, feito de uma resina fibrosa extraída das cascas de coníferas. Osmar estremeceu. Ficou perplexo. Soltou um berro estridente, saiu desembestado do recinto e reapareceu com uma tocha acesa. Os convidados, em desespero, amontoaram-se para fugirem do órfão insano que ameaçava a todos com chamas.

Num átimo de loucura, Osmar sacudiu a tocha até formar uma circunferência incandescente. Depois, foi queimando as coroas de flores e as pétalas de rosa até que o fogo se espalhasse e atingisse o caixão da mãe. O velório se transformou num crematório antecipado. Foi preciso que os bombeiros fossem chamados para conter as chamas. O caos se instalou. Nada restou da mãe. Osmar ficara por algum tempo internado no hospício. Após a alta, foi morar na antiga residência da mãe e, desde então, só colocava fogo em pequenas tábuas, armários, escrivaninhas e alguns caixotes. Tudo isso em sua casinha de veraneio. Jamais fora visto queimando nada no condomínio de sua mãe.

Mas naquele dia, não resistiu à tanta oferta de madeira no corredor do seu andar. Durante a madrugada, na calada da noite, Osmar saiu de casa com querosene e uma caixinha de fósforos. O breu engolira todos os objetos. Ao primeiro passo, as luzes de emergência acendeu. Mas nem um minuto depois, apagaram-se. Tudo ficara novamente na escuridão. Osmar sentiu que tivera sorte, pois assim passaria despercebido conforme planejara. Despejou várias garrafas de querosene naquela madeira toda dando sopa. Deu um passo para trás e riscou o fósforo.

Curvou-se solenemente e, num peteleco, atirou o fósforo aceso em cima da madeira embebida em material comburente. Um clarão repentino, que sucedeu a uma leve explosão, lambeu o corredor por inteiro. Já com a pele rachando e borbulhando pelo calor excessivo, Osmar dera a última gargalhada, uma gargalhada fantasmagórica que ficara agarrada às paredes do prédio como a fuligem do carbono.

Ao amanhecer, Osmar se levantou assustado. Tivera um pesadelo tenebroso. Amava tacar fogo em celulose, mas há muito tempo não cometia tais insanidades pirotécnicas. Estranhou ter acordado todo ensopado. Os lençóis estavam empapados por um líquido amarelado e de odor insuportável.

Não realizara seus supostos impulsos incendiários, mas também não escapara da punição dos deuses. Estava deitado sobre sua urina fétida. Pelo menos, molhado e humilhado, comprovara o ditado dos seus avós sobre os perigos de brincar com fogo.

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Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A Despedida.









A Despedida.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

O maquinista apitara mais uma vez. Seria a última oportunidade de adeus antes do embarque. O alvoroço se intensificou na estação de Keleti, em Budapeste. Acenos, lágrimas, sorrisos, despedidas, um vozerio sem fim. Enquanto Edit enlaçou István com um abraço aflito e cheio de saudade, seus dois filhos se enroscaram em suas pernas, chorando copiosamente, e imploraram para que o pai não partisse.

István, contendo-se, ainda derramou algumas lágrimas antes de respirar fundo, abaixar para pegar suas malas, sorrir confiante e se virar para embarcar. Ao subir a escadinha da locomotiva, foi severamente revistado. Após a constrangedora inspeção, entregou o bilhete para o fiscal que, por sua vez, indicou-lhe o seu assento. Em seguida, ajeitou suas malas para que coubessem no bagageiro e se acomodou ao lado da janela.

Pegou um lenço do bolso para desembaçar o vidro. O frio lá de fora contrastava com o ar quente inalado e expelido pelos passageiros. Uma espessa fumaça branca, em abundância, matizou o azul do céu. O gigante de ferro se pôs a trilhar seu caminho. István tentou esconder a emoção ao ver seus filhos correndo atrás do trem.

Sua esposa, cada vez menor pela distância, com uma das mãos no rosto, disfarçando o inchaço dos olhos e a vermelhidão do nariz, apenas acenava ao longe e gritava os nomes dos filhos para que voltassem. Visivelmente abatido, István ergueu a mão e mexeu os dedos, como se apenas os abrisse e os fechasse timidamente. Tal gesto jamais seria percebido por quem fosse que estivesse do outro lado da janela.

Seu peito apertava quanto mais se afastava. Vislumbrava melhores condições na Inglaterra. A guerra já consumira a maior parte do continente europeu. Ser cidadão húngaro só levava ao pior. Invasões após invasões. Dominações após dominações.

Como se já não bastasse perder sua língua materna para o império austríaco em outras épocas, agora corria o risco de perder sua própria família para o nacional-socialismo alemão. Estava obstinado em não permitir tamanha tragédia. Embora não fosse judeu, já havia perdido amizades valiosas para o obsceno antissemitismo. Nada pôde fazer para salvá-las, mas estava em suas mãos dar uma vida mais digna à sua família.

As condições eram péssimas até para os não-judeus. Tudo ia de mal a pior. Ouvira que na Inglaterra ainda havia algo de próspero naqueles tempos malditos. Sabia que algumas personalidades, inclusive as perseguidas, de diferentes nações, encontraram asilo político e econômico por lá. Deixaria sua esposa e filhos apenas por algumas semanas, pelo menos até descobrir uma maneira de se estabelecer financeiramente. Mandaria dinheiro antes de voltar para buscá-los.

Eles não passariam por necessidades por algum tempo. Havia uma boa economia que juntara debaixo do colchão, dinheiro vivo. Não acreditava nos banqueiros. O trabalho no setor agrícola, antes que a crise despencasse de vez, tinha lhe rendido alguma coisa. Esse dinheiro seria suficiente até o seu regresso. Seus conhecidos também não os deixariam passar fome durante sua ausência.

Enquanto István pensava em todas as suas responsabilidades, o trem parou numa estação desconhecida. Oficiais da SS entraram batendo com força seus coturnos no chão, como se marcassem território. Um deles arrancou um sujeito de um assento aos murros e pontapés.

Alguém cochichou ao fundo que judeus viajavam clandestinamente, com identidades falsas. Depois daquele, outro também foi jogado do trem com violência, maltratado, pisoteado, assassinado na frente de todos. Quando os soldados apanharam o terceiro, István, movido pelo remorso de nada ter feito para proteger seus amigos judeus, levantou-se, saltou no pescoço de um oficial, agarrou-o pela farda e lhe desferiu um soco na cara.

O companheiro do oficial do serviço secreto, sem que a origem de István importasse, sacou a pistola e disparou, acertando, com precisão cirúrgica, a testa do húngaro. Os demais passageiros, menos indiferentes do que apáticos, mantiveram-se em seus assentos.

Um dos soldados agarrou o corpo de István com desdém, cuspiu em seu rosto e o jogou no trilho, deixando que o gigante de ferro terminasse o serviço - desfigurasse-o, tornando-o irreconhecível. Após identificarem o terceiro judeu, os oficiais se retiraram, levando-os para um gabinete anexo à estação.

O trem seguiu viajem como se tudo aquilo jamais tivesse acontecido. Semanas e meses se passaram sem que Edit e seus dois filhos tivessem notícias de István. Seus parentes a tranquilizavam, dizendo que os correios extraviavam muitas correspondências em época de guerra e que em breve ele estaria de volta.

Mas após dois anos sem que nada soubesse do marido e passando por terríveis necessidades, Edit cedeu aos galanteios de Moritz, um oficial alemão. Um ano depois, ela e os filhos se mudaram para uma agradável casinha no interior de Berlim. Moritz cuidava dos filhos de Edit como se fossem seus. Com os cuidados do oficial da SS, a família jamais passou por mais nenhum aperto.

Moritz prometera encontrar István. Mas, depois de muito tempo sem nenhuma pista do seu paradeiro, nem mais no nome dele a nova família alemã tocara. István fora esquecido para que a vida retomasse seu curso normal. Com o atencioso mantenedor alemão e uma nova casa em outro país, Edit reencontrou a paz indispensável para recomeçar ao lado dos filhos.


Conto Escrito por Alex Azevedo Dias.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Um Doce Encontro.


















Um Doce Encontro.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Diariamente, ao entardecer, ela passava pela calçada de mosaicos tortos. Artistas anônimos, mestres calceteiros, desenharam ondulações com as irregulares pedrinhas portuguesas. Talvez a maioria deles já não mais exista, mas deixaram suas marcas nas calçadas brasileiras, herdeiras que são da última flor do Lácio. Das ondas do mar de Copacabana às partituras de Noel Rosa em Vila Isabel. O mosaico do calçadão da praia de Icaraí, em Niterói, lembra os naipes das cartas de baralho, muito semelhante às calçadas lisboetas.

Pontualmente, às seis horas da tarde, aquela jovem cruzava a rua Augusta. Eu a via desde a Praça do Rossio até atravessar o trilho do histórico bonde amarelo da Praça do Comércio. A primeira vez em que a vi, eu contemplava a algazarra dos vendedores ambulantes e artistas de rua da janela do hotel em que estava hospedado. Da multidão homogênea, ela apareceu. Todos os holofotes imaginários a destacaram, enquanto a massa de transeuntes desaparecera por completo de minha vista. Vestido branco, rendado, deixando as coxas à mostra, sapatos de salto-alto, sutiã levemente visível pela alça do vestido que lhe escorregava pelo ombro. De seus cabelos longos e discretamente ondulados à maneira como balançava a cintura e brincava de esconde-esconde, cobrindo e descobrindo as costas e o colo com sua mexida de cabelo, uma saudade do Rio me tocou a alma.

Estava em Portugal a trabalho, Precisava fechar um negócio lucrativo para o restaurante paulista com o qual tinha sociedade. Iguarias lusitanas eram o meu alvo. A rua Augusta, homenagem a D. José I, o Augusto, dentre outros tipos de comércios, tem um mercado gastronômico de primeiríssima qualidade. Além da formalidade dos cafés, com suas mesas distribuídas ao longo do calçamento, os artesãos da culinária - populares preciosidades - também, e principalmente, merecem honrarias. A rua Augusta é fechada ao trânsito. Faz lembrar a rua Quinze de Novembro em Curitiba. Escrevo estas linhas daqui, de Portugal. Hoje, não mais à procura dos artistas da boa mesa, mas por outro motivo. Um motivo vital. Motivo que me impulsionou a transferir residência de São Paulo para a terrinha dos alfacinhas lusitanos.

Não sei se os lisboetas ainda consomem tanto alface, mas na época da invasão moura, talvez esse fosse um dos únicos alimentos do povo de Lisboa. Por isso o tal título pejorativo que perdura até hoje dos cidadãos lisboetas: alfacinhas. Tenho saudade da minha terra natal. Tenho saudade do Rio, de São Paulo, de Curitiba... Tenho saudade do Brasil. Mas nenhuma saudade é capaz de me tirar desta cidade. Eu amo uma mulher e amo um país. Gosto de Portugal, mas não é amor. E o meu amor pelo Brasil em nada se compara ao amor pela mulher. O amor pela mulher é mais forte e me impede de voltar para lá, para além mar.

Acho que nunca mais cruzarei a imensidão do Atlântico. Pois o sentimento que tenho pela mulher dos cabelos encaracolados - tão carioca no jeito e tão portuguesa na origem - é mais oceânico do que o mar. Tirando o samba que se ouve em cada esquina, a rua Augusta de Lisboa tem alguma coisa da rua do Ouvidor do meu saudoso Rio de Janeiro. Talvez os bares, a arquitetura, uma certa musicalidade entoada pelos tocadores de harmônica, pessoas se divertindo, comprando, cantando, bebendo, enfim... sendo felizes.

Certa vez, como quem não quer nada, peguei um bondinho turístico bem na hora em que a jovem, que já estava no meu coração sem que soubesse, passaria por lá. Quando a vi chegar à Praça do Comércio, saltei do bonde e me aproximei. Tomei coragem, respirei fundo e ensaiei um cumprimento, uma saudação, um alô de apresentação. Mas recuei envergonhado. Levava uma sacola com pasteizinhos de nata e alguns folhetos informativos sobre o folclore gastronômico da cidade. Eu me sentia mal vestido. Peças amarrotadas. Estava suado pelo tempo de andança pelas ruas de Lisboa. Usava uma boina e havia deixado a barba áspera, por fazer, e exibia um bigode cultivado há semanas. Tirando a parte do bigode que, para mim, mesmo forçando a barra, é um símbolo viril de outros tempos, eu me sentia sujo e feio. Com um pé fincado no chão, fiz que ia e que vinha duas vezes, hesitando o primeiro encontro.

Quando eu me dei por mim, lá estava ela, estatelada à minha frente, me olhando espantada. Eu parei, constrangido e a olhei, franzindo as sobrancelhas com ar patético. Ela ficou séria por mais alguns segundos até, incontrolavelmente, cair na gargalhada. Com cara de bobo, para não parecer ainda mais bobo, ri de mim mesmo. Aquela situação vexatória fora o momento mais empolgante pelo qual passei em todo aquele tempo em Portugal. Ela ria de mim. Eu ria com ela. Nosso primeiro contato. Nossa primeira risada juntos. Contrariando minha expectativa em correr com os braços abertos até ela, eu apenas suspendi a boina com a mão direita, cumprimentando-a, e corri para o sentido contrário, sem olhar para trás.

Cheguei ao meu hotel com incontida felicidade. Sempre achei a palavra "radiante" meio afrescalhada, mas tal palavra era a mais apropriada para representar minha alegria: Eu estava radiante, era isso! Mas o sentimento de euforia logo cedeu lugar a certo arrependimento por não ter ficado e conversado com ela. Por dois dias eu não a vi. Nossos horários não coincidiram. Fiz vários contatos importantes com doceiros e confeiteiros, mas o meu coração estava amargo, temendo não mais vê-la.

No terceiro dia sem vê-la, meu coração novamente açucarou. Estava tomando um cafezinho sentado a uma mesa exterior de uma cafeteria local, quando a vi se aproximar e me perguntar se eu gostaria de sua companhia. O rubor esquentou minhas bochechas. Meio afônico, eu a convidei para se sentar. Então, iniciamos nossa primeira de muitas conversas:

- O que foi aquilo na Praça outro dia? - Falou a jovem segurando o riso e tampando a boca com uma das mãos.

- Eu... é... Queria te dar um "oi".

- Só um "oi"?

- Também queria perguntar o seu nome.

- Só o meu nome?

- É... pode ser... Não sei...

- Não fique inibido. Estou brincando com você. Meu nome é Márcia. E o seu?

- Eu me chamo Fael.

- Você não é daqui, né Fael? Você fala como um brasileiro. Você é brasileiro?

- Sim. Sou do Rio. Mas moro em São Paulo. Sou sócio de um restaurante lá.

- Hum... Que interessante. Tenho tanta vontade de conhecer o Rio...

- E por que não vai?

- Porque nunca tive alguém que eu gostasse o suficiente para me fazer companhia e me apresentar a cidade.

Nesse instante, eu apenas sorri, visivelmente envergonhado. Sem saber como agir, coincidentemente, um vendedor de flores passou entre as mesas e me ofereceu uma. Sei que no Rio, comprar uma rosa para a mulher que está com você equivale, pejorativamente, ao chamado "consolo" para mulheres da vida. Mas como eu estava numa cultura diferente, e os vendedores de flores não são maltrapilhos com muitos do Rio, têm postura e elegância, resolvi arriscar. Escolhi uma, paguei e a coloquei entre as mãos, como se a fizesse um galanteio. Márcia sorriu e aceitou o presente.

- Mas que gentil, esse gajo...

- Não vou negar, estou tímido. Me desculpe se eu a ofendi com essa flor.

- Não, não. Muito pelo contrário. Eu a achei linda. Amo flores.

- Que bom, que bom. Bem... é... se quiser... algum dia... eu... é... te levo para conhecer o Brasil. Quer?

- Uauuu! Claro que eu quero. Pensei que você não me convidaria nunca.

- Você fala muito bem o português brasileiro. Tem certeza que nunca foi ao meu país?

- Sim, Nunca fui. Mas amo as músicas e as novelas brasileiras. Eu assisto a todas. Adoro MPB. Caetano. Conhece?

- Claro! Gosto muito também.

- Como não o conheceria, né? Boba que sou. Você deve ser até vizinho dele, né?

- Não, não. Nunca o vi, para falar a verdade.

- O Brasil é muito grande... Fui boba novamente por achar que o seu país é do tamaninho do meu. Portugal cabe na palma da mão.

- Mas é lindo!

- É, isso é sim.

-...

- Posso fazer uma coisa?

- Pode. O quê?

Antes mesmo de perguntar sobre que coisa ela queria fazer, Márcia se levantou, debruçou-se sobra a mesa, pegou o meu rosto com as duas mãos, suavemente, e me deu o mais açucarado beijo na boca. Naquele instante, eu descobri o que procurava em Portugal. Era o doce mais perfeito de todos. Inigualável. Nenhuma iguaria, sofisticada ou popular, chegava aos pés daquele beijo. Eu sentia a língua de Márcia. Sentia seu sabor. Eu nasci para aquele beijo. Meu paladar jamais sentira tamanha formosura. O verdadeiro manjar dos deuses. Estava no Olimpo. Não o Olimpo grego, nem o português, nem o brasileiro, caso existam, mas o Olimpo do amor.

Ela deveria se chamar Dulce, pelo açúcar e não Márcia. Mas eu gostava de Márcia. Amava aquela Márcia. No dia seguinte, ela me levou para conhecer os pontos turísticos de Lisboa. Foi um passeio incrível. Terminamos a noite no meu hotel. Amanhecemos abraçados, amando-nos, nus, um sobre o outro, do lado do outro, misturados. No outro dia, eu liguei para Jonas, o sócio majoritário do restaurante paulista. Disse para ele que de todos os doces que experimentei em Portugal, saboreei um cuja sensação maravilhosa me impedia de voltar. Disse que estava perdidamente hipnotizado por aquele sabor e que não poderia mais voltar para o restaurante no Brasil.

Ele entendeu. Também sentira algo parecido pela mãe de seus filhos. Ele se encantou por um beijo doce assim como eu me encantei pelo sabor da boca de Márcia. Márcia morava com os pais. Com a ajuda da família dela, não foi difícil conseguir o visto de permanência e a cidadania portuguesa. Nos casamos em uma cerimônia simples, porém repleta de cumplicidade e afeto. Passamos a lua de mel no Rio de Janeiro. Ela ficou encantada. Eu a levei aos principais pontos turísticos, além dos menos badalados e mais românticos. Por coincidência, Caetano Veloso fazia uma turnê pelo Rio naquela ocasião. Márcia ficou deslumbrada. Fomos ao show e seu encantamento se completou. Depois de uma semana e meia de amor melífluo, voltamos a nossa querida terrinha portuguesa.

Em frente a um dos mais belos mosaicos de pedrinhas na calçada da mesma rua em que a conheci, montei um pequeno restaurante especializado em comida brasileira. Márcia me dava ótimos conselhos. Ela virou a minha mulher, a mãe dos meus filhos, uma formidável conselheira gourmet e a responsável por açucarar meu coração.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

*

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Os Amantes.






Toda tarde de segunda-feira, Jonas tinha um compromisso inadiável: dividir a cama com Mirtes. Nos finais de semana, dedicação exclusiva às suas famílias. Não se deixavam dividir nem em pensamento. Viviam para suas famílias, e estas por eles. Passeios, afazeres, atividades e inatividades domésticas. Mas nas noites de domingo para segunda a ansiedade da espera possuía-os por inteiro, sem dó nem piedade.

Mirtes e Jonas, durante a semana, ocupavam-se integralmente com seus respectivos trabalhos. Só nas segundas, à tarde, tinham o único período de folga. Entregavam-se à carne pulsante até a proximidade do anoitecer. Depois se banhavam, arrumavam-se e voltavam para suas casas como se retornassem de uma exaustiva tarde de trabalho. Eles só se conheceram justamente pela coincidência dessa tarde de descanso.

Mirtes era professora universitária de história da arte. Jonas, arquiteto numa empresa de paisagismo e decoração de interiores situada ao lado da universidade em que Mirtes lecionava. Eles se conheceram numa cafeteria muito frequentada por professores e alunos da faculdade de humanas e filosofia.

Quando se viram pela primeira vez, não conseguiram mais desviar o olhar. Flertavam-se à distância, sem a ousadia da aproximação. Numa dessas tardes de segunda-feira, Jonas foi quem tomou coragem para o encontro inaugural. Mirtes estava sozinha sentada a uma retangular mesa com tampo de jacarandá. Jonas apreciava muito aquele cantinho. Era a única mesa da cafeteria de tal qualidade. Não tinha cadeiras. Eram dois bancos rústicos de peroba do campo.

O barista tinha acabado de servir um cappuccino quando Jonas chegou e iniciou uma conversa:

- Não sabia que se interessava também por artes sacras.

Mirtes se virou para Jonas e abriu um sorriso, convidando-o para se sentar ao seu lado. Ele prontamente aceitou e pediu ao barista que lhe levasse um cappuccino igual ao de Mirtes. Eles se apresentaram com um simples aperto de mãos. Ela comentou a abordagem de Jonas:

- Acho louvável a caridade dos franciscanos, mas dos frades capuchinhos eu só curto mesmo o sabor deste café.

Mirtes soltou uma gostosa gargalhada, sem tirar os olhos de Jonas, e voltou a falar:

- Agora sério. Sou historiadora das artes em geral, mas pouco vinculo a história à teologia. Essa parte eu deixo para os meus colegas do Mosteiro São Bento e da PUC.

Interessado – mais nela do que em sua profissão -, Jonas continuou enveredando-se por uma disfarçada indagação sobre a profissão de Mirtes:

- Mas qual tipo de arte você prefere? Medieval, renascentista, moderna ou contemporânea?

- Todas essas me interessam como professora e pesquisadora que sou. Mas na prática da vida real, extramuros universitários, a arte que eu gosto só tem uma.

- E qual é?

- A arte do sexo!

Jonas se assustou com a resposta curta e grossa de Mirtes. Ele ficou por alguns instantes tentando tomar fôlego para assimilar a frase cortante daquela mulher fantástica. De repente, ele a tomou em seus braços e se beijaram com tanta ardência que calafrios se ramificaram dos membros superiores aos inferiores numa euforia decadente e incandescente.

Para evitar os curiosos e os que se ocupavam da vida alheia, eles saíram rapidamente até o carro de Mirtes para se entregarem à paixão em qualquer motel barato de beira de estrada. O contato dos seus corpos suados produziu melodias originais. Contorceram-se voluptuosamente como dois gatos jovens brincando no emaranhado de um novelo de lã. Dentadas, unhadas, salivas e secreções. Amaram-se como adolescentes furiosos e inebriados pela descoberta do sexo.

Só imaginaram o risco que correram ao se agarrarem publicamente, quando os cigarros foram acesos e os corpos nus esfriavam pela descarga de toda a tensão acumulada. Mirtes revelou que era recém-casada. Jonas já estava casado há mais de dez anos. Enquanto Jonas tinha dois filhos, Mirtes não tinha nenhum. A sorte é que aquela cafeteria perto da universidade não era frequentada pelos cônjuges de nenhum dos dois, pois, coincidentemente, tanto a esposa de Jonas quanto o marido de Mirtes odiavam café. Continuaram se encontrando em motéis. Mas procuravam não se repetirem. Cada segunda-feira à tarde os dois iam a um motel diferente. Menos para evitar que levantassem suspeitas do que para a relação não cair num ostracismo - a dolorosa rotina que ambos conheciam muito bem em seus matrimônios.

Após muitos meses conhecendo os mais variados motéis, Jonas sugeriu que tivessem um lugar fixo no qual pudessem se deleitar, não como um casal, mas como amantes que eram. Sob pretexto de montar um escritório particular, Jonas alugou um conjugado. Realmente montou seu escritório, mas nele havia uma divisória sagrada que só era aberta nas segundas à tarde para a folia do amor. Esses encontros transcorreram sob absoluto sigilo e satisfação garantida dos amantes durante quase um ano.

Exatamente numa segunda-feira que completaria um ano de carícias fogosas no conjugado de Jonas, Mirtes não apareceu. Ele ficou apreensivo, procurou-a como pôde, e não teve nenhuma notícia dela. Resolveu ficar quieto e aguardar um telefonema que explicasse sua ausência. Uma semana passou. Outra segunda chegou. Jonas a esperou, mas nem sinal de Mirtes. Embora ansioso e impaciente, Jonas esperou por cinco segundas-feiras sem a menor noção sobre o paradeiro da amante. Na quinta segunda, ele se desesperou. Sabia onde ela morava, mas jamais pensara em tamanha ousadia. Cada um tinha seu santuário inviolável. Eles fizeram um pacto para que nenhum dos dois chegasse nem perto da família do outro.

Mas o sumiço de Mirtes o angustiou tanto que Jonas, cansado de ligar e não obter resposta do único meio de comunicação que tinha com Mirtes - o celular particular dela - não pensou duas vezes e foi até a sua casa. Estava vazia. Levou alguns dias rondando a casa de Mirtes de longe. Estava sempre fechada. Não tinha ninguém por perto. Um dia, avançou o sinal e olhou pela janela. Tudo escuro.

Verificou se a porta estava aberta. Girou a maçaneta e, no mesmo instante, uma voz de homem o fez estremecer:

- Boa tarde, senhor. O senhor veio ver a casa?

- Está à venda?

- Sim. Há duas semanas. Não viu a tabuleta na entrada?

- Não. Mas aqui não morava um casal?

- Não soube o que aconteceu?

- Não.

- Bem... Não gosto de tocar neste assunto para não espantar potenciais compradores. Mas como o senhor, pelo menos é o que parece, não está interessado em comprá-la, eu vou contar. O senhor Conrado, proprietário deste imóvel, encontrou sua esposa morta no banheiro da casa. A moça cortou os pulsos com a lâmina de barbear do marido. Fizeram a autópsia e descobriram que a mulher estava grávida. Era uma gravidez recente, por isso não puderam salvar o feto. O senhor Conrado ficou inconsolável. Amava muito a Mirtes e planejava ter filhos. Uma história muito triste...

Jonas ficou atônito. Tão pálido que o corretor, assustado, ofereceu-lhe ajuda:

- O senhor era amigo da família? Quer um copo com água?

Percebendo que não havia melhora, o corretor pegou o carro e levou Jonas ao hospital. Foi internado em estado grave. Recusava-se a melhorar. Não comia, não bebia. Estava só à base de soro e medicamentos. A esposa e os filhos de Jonas acharam que ele não suportaria. Eles revezavam para acompanhá-lo no hospital. Fizeram vigília e muitas orações para que Jonas se recuperasse. Depois de cerca de dois meses, Jonas, pele e osso, recebeu alta do hospital e voltou para casa.

A primeira coisa que fez foi procurar o corretor que o hospitalizou. Eles conversaram amistosamente por telefone. Soube que a casa de Conrado ainda não tinha sido vendida. Jonas tratou de convencer a família que precisava de novos ares para se recuperar totalmente. Colocou sua casa à venda e fechou o negócio com o corretor. Adquiriu a antiga casa de Mirtes e se mudou para lá com sua mulher e os dois filhos.

Jonas ganhou peso, ficou novamente saudável, corado, e retomou sua vida profissional.
Sua esposa ficou maravilhada com a disposição do marido em se especializar mais na arquitetura. Jonas se tornou professor titular em história da arte, com ênfase em arquitetura medieval e renascentista. A família só nunca entendeu o motivo de Jonas se trancar toda segunda-feira à tarde no banheiro da casa e se balançar sentado no vaso sanitário com as duas mãos na barriga, sem dizer nenhuma palavra.

Sua esposa muito se preocupava com o ritual de Jonas, que poderia ser o início da loucura. Mas Jonas estava tão bem disposto profissionalmente, também como pai e marido, que ela nunca o questionou sobre esse estranho comportamento.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

Um Sem o Outro.








Uma multidão se acotovelava pelas ruas no horário do rush. Driblando os obstáculos humanos, Mauro correu o máximo que pôde para alcançá-la antes de embarcar.
Tentou ligar. Não atendeu. Possivelmente já entrara no ônibus. Esbaforido, chegou à rodoviária. O privilégio da altura de Mauro era a possibilidade de olhar por cima das cabeças e ombros que bloqueiam a visão da maioria dos aflitos. Mesmo assim não a viu. Aproximou-se mais da plataforma em que algumas filas se desfaziam. Procurou-a impacientemente.

Conseguiu ler o itinerário de um dos ônibus e identificou subitamente o lugar sobre o qual Diana tanto falara. Mauro enxergava longe como os emplumados de rapina, mas quando se tratava dos sonhos da amada, enceguecia-se.
Apesar de sua incapacidade para assimilar as ambições e intimidades dela, fingindo-se de morto, sua memória não falhara. Sabia qual era o destino de Diana. Embora sem chuva, o tempo nublado dificultava a visão do interior do ônibus. A luminosidade exterior contrastava com as trevas do coração de Mauro e a penumbra na qual os passageiros mergulhavam em seus assentos.

O motorista ligou a ignição no mesmo instante em que as esperanças da última despedida começaram a esmorecer. Inconsolável, mas já quase conformado, Mauro revisitou as janelinhas já incansavelmente analisadas. Seu coração acelerou e se encheu de alegria ao notar Diana, com as duas mãos no rosto, cotovelos apoiados no parapeito da janela, contemplando o vazio. Mauro deu um salto e foi ao encontro dela. As janelas não abriam, pois eram vedadas por causa do sistema de climatização.
Mauro espichou o tronco, inflou os pulmões, estufou o peito e, confiante, bateu no vidro com o nódulo dos dedos. Diana elevou o olhar. Seu rosto inchado e os olhos encarnados pelo pranto de outrora, sublimaram-se na magnitude de um sorriso.

Uma chuva fininha deixou a poeira da janela com aspecto de lama. Os olhos de Diana se umedeceram pelas lágrimas do reencontro. Por detrás da sujeira molhada do vidro, o rosto da amada parecia a Mauro uma triste pintura enegrecida pelo borrão do tempo. Mauro sabia que precisava restaurar aquele amor. Retirar as camadas de impureza que maculavam as tintas da ternura para atingir o primoroso começo que os manteve unidos até então.

O ônibus partiu. A espessura do vidro não permitia ouvir o som nem de fora para dentro, nem de dentro para fora. O semblante de Diana ficou pesaroso. O ônibus se afastou gradativamente. Mauro foi atrás tentando gesticular o quanto a amava e na ânsia que ela fizesse uma leitura labial da frase que tanto se esmerava em repetir: “Eu te amo!”. Ela, apesar de não articular os lábios visivelmente, murmurava em seu íntimo que, não importando para onde fosse, jamais esqueceria Mauro.

Para sair da rodoviária, o ônibus fez uma curva muito fechada, o que obrigou o motorista a manobrar o veículo. Nesse breve contratempo, Mauro chegou novamente à altura da janela de Diana e, com a ponta do dedo indicador, desenhou um coração na sujeira enlameada do vidro. Diana levou ambas as mãos ao contorno feito pelo amado, e como se tentasse segurá-lo, fechou as mãos e as levou até o peito. Depois soprou os dedos abertos como a oferta do seu próprio coração a Mauro.

O motorista fez a curva e saiu da rodoviária. Diana lentamente se perdeu nas neblinas do coração de Mauro. Ela seguiu viagem pensando nele. Ele, por mais algum tempo, permaneceu olhando para a ausência que restou dela. Virou-se e seguiu o rumo de sua casa. Em todo o trajeto, Mauro só tentava se imaginar sem Diana. Pensava como sobreviver ao resto de uma vida condenada à sua inexistência.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sangue do Meu Sangue.








Numa gaveta da cozinha, pegou uma vela e uma caixa de fósforos. Na sala, abaixou-se para alcançar na mesinha de mármore um cinzeiro de granito. Emborcou-o sobre a cristaleira antiga, riscou um fósforo para acender o pavio da vela e deixou que a cera derretida pingasse sobre o fundo do cinzeiro. Fixou a vela acesa na superfície parafinada. Apanhou um terço feito de bronze patinado que estava pendurado na parede, cruzou os dedos com a peça sagrada entrelaçada, ajoelhou-se em frente à vela e “desfiou o rosário”:

- Perdoe-me Pai, por ser hospedeiro do “coisa ruim”. O fato de querer matá-lo não o exclui de ser sangue do meu sangue. Ele não é culpado por ter nascido do mesmo pai e da mesma mãe.

- Deus misericordioso, não permita que eu o mate. Segure minha mão antes que eu desfira o golpe fatal. A culpa é minha, só minha, por odiá-lo tanto.

- O que ele fez comigo não se faz ao pior inimigo!! Como um irmão pode querer mal ao outro? Minha desgraça se deve a ele e a mais ninguém. Crápula maldito!!

Num gesto abrupto, Sânio bateu com as costas da mão no cinzeiro, arremessando-o contra a parede. No impacto com o piso de cerâmica vermelha, a vela quebrou ao meio, resistindo apenas mais alguns segundos com a chama acesa. Com o semblante contraído, a testa franzida e os olhos apertados, Sânio empunhou bem alto o terço de bronze, sacudiu-o diversas vezes e, desajeitadamente, colocou-o no lugar de sempre, pendurado na parede por um preguinho.

Percebendo que a hora já se avançara muito, foi ao quarto se arrumar. Seu irmão, Samir, marcara com ele uma conversa a sós. Faltava apenas quarenta minutos para o horário combinado. Ele precisava se apressar. Sânio morava numa casinha bem distante do tumulto civilizatório. A única casa de uma colina verdejante, com um lago de azul cintilante e um frondoso ipê amarelo. Sânio vestiu uma camisa branca de botão, com seu especial colarinho de linho engomado, colocou uma calça preta de brim e calçou os sapatos sociais devidamente engraxados. Deixou a camisa para fora da calça para ficar mais informal. Afinal, estava bem vestido, mas era para encontrar-se com alguém da família, e não com um grande executivo ou empresário.

Sânio saiu. Esquecera-se de fechar a porta. Contornou o lago. Parou em frente ao ipê amarelo e passou a mão em seu tronco de espessura moderada. Olhou para o horizonte e avistou um vulto próximo à beira do penhasco. Viu que ainda faltavam cinco minutos do horário marcado. Teve satisfação em constatar que Samir continuava pontual como sempre fora. Nunca atrasava nenhum compromisso. Mesmo quando brincavam na rua em que moravam quando crianças, Samir era o primeiro a chegar, antes de todos os garotos, e o primeiro a ir embora quando ouvia a grito da mãe avisando que anoitecera, e mandando que os dois irmãos voltassem para casa.

Samir estava de costas para Sânio e defronte ao precipício. Usava tênis branco, uma calça jeans surrada e um casaco Sobretudo azul-marinho que deixava entrever apenas a gola e as mangas da camisa de seda clara. Sobre sua cabeça, um chapeuzinho panamá compunha o figurino. Saboreava calmamente, com tragadas pausadas, um cigarrinho de palha. Antes de chegar, Samir - que não consumia fumo industrializado - enrolou o tabaco numa pequena palha de milho e passou a língua para fechá-lo. Pegou um isqueiro do bolso esquerdo e acendeu seu cigarro artesanal. Enquanto esperava o irmão, Samir ficou contemplando o belíssimo vale que se abria sob seus pés. Colocou o cigarrinho no canto da boca, deixou as mãos repousarem nos bolsos da calça e se manteve olhando fixamente para além do precipício, numa hipnótica sensação nauseante.

Um vento muito forte soprou para a colina. Sacudiu os galhos do ipê amarelo e levou embora o chapéu de panamá de Samir. Ele ainda tentou segurá-lo com as duas mãos, demonstrando certo nervosismo, mas a força da natureza venceu a tentativa do homem de recuperar o acessório esvoaçante. Enquanto Samir arrumava os cabelos desgrenhados, Sânio o cumprimentou com dois tapinhas nas costas.

- Há quanto tempo, velho irmão! Não me aguentava de curiosidade para saber o que o trouxe aqui depois de anos.

- Sânio, Sânio... Continua com a mesma ironia fina de sempre, heim!?

- Ok. Obrigado pela parte que me toca, mas vamos logo ao assunto que o fez voltar aqui.

- Meu assunto é apenas voltar a vê-lo, matar as saudades do meu irmão.

- Então vamos apertar as mãos como dois adultos civilizados. Daremos um ou dois abraços e eu voltarei para minha casa. Não posso convidá-lo para tomar um café, porque estou sem gás para esquentar a água.

Sânio, que ainda se mantinha distante, andou em direção a Samir com o braço direito estendido para apertar a mão do outro. A vontade era, ao invés de oferecer a mão aberta para um amigável cumprimento, cerrar o punho e desferir uma violenta bofetada na cara de pau do irmão. Samir, na borda do penhasco, recuou meio passo, o suficiente para que seu calcanhar ficasse suspenso no ar e deixasse que algumas pedrinhas se desprendessem e rolassem pelo despenhadeiro. Desequilibrando-se, Samir impulsionou-se para frente para recuperar o aprumo corporal. Sânio, sem notar o rápido deslocamento do irmão, seguiu em linha reta. Samir ainda tentou puxar o irmão pela manga de sua camisa, mas Sânio precipitou-se no vazio e despencou.

Sânio ainda conseguiu se segurar com os dedos da mão esquerda na beirada do penhasco. Samir que, ao contrário do irmão, jamais pensara em matá-lo, inclinou o corpo para frente para puxá-lo com as duas mãos. Sem que obtivesse nenhum êxito, caindo para trás pelo excesso de força que imprimira na tentativa frustrada, levantou-se e constatou que Sânio, resistindo bravamente, agarrado ao fiapo de vida que lhe restara, ainda lutava contra a morte, dependurado na beira do precipício.

Movido por um irresistível impulso, Samir resolveu ajudá-lo novamente. Porém, dessa vez o ajudou a abreviar seu martírio. Com um estranho sentimento de piedade, Samir chegou o mais perto possível da mão de Sânio, com o corpo ereto, e apenas a cabeça levemente inclinada para baixo, e esmagou os dedos do irmão do mesmo modo que se esmaga uma binga de cigarro, pressionando e arrastando a planta do pé de um lado para o outro. Antes de desabar, Sânio ainda olhou fixamente para os olhos de Samir, de tal modo que seu irmão entendesse que era ele que deveria morrer em seu lugar. Samir ficou só observando o corpo de Sânio se esfarelando contra o rochedo até se esborrachar, já sem vida, no chão de terra batida daquele vale.

Samir levantou a cabeça e perdeu o olhar na imensidão do horizonte. Levou o cigarrinho de palha à boca para a última tragada. A pontinha que restou, apoiou no polegar direito, e com o indicador, deu um peteleco até vê-la cair suavemente, ao contrário da queda monumental do corpo de Sânio. Deu meia volta, e caminhou em direção à casa do irmão. Contornou o ipê amarelo, o lago, e girou a maçaneta da porta.

Antes de entrar, Samir bateu os pés num tapetinho felpudo, em sinal de respeito e se admirou com os dotes estéticos de Sânio. Achou a decoração da casa de muito bom gosto. Só abaixou-se para recolher uma vela quebrada e um cinzeiro de granito que estavam jogados na cerâmica vermelha. Sentiu uma ponta de decepção por aquele descuido. Mas logo afastou qualquer má lembrança do outro e se sentou na poltrona predileta de Sânio para, desfrutando do conforto, recordar alegremente daquele velho e querido irmão.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

domingo, 12 de maio de 2013

O Caminho das Flores.








Num jardim em frente à sua casa, Lívia contemplava as pequenas begônias vermelhas e os arbustos altos de gardênias brancas. Não teve inspiração para compor boleros, mas o perfume das gardênias despertou a lembrança de Otávio. Ela abriu os braços o máximo que pôde, deu alguns saltos na ponta dos pés, girou o corpo ainda saltando e correu entre os arbustos, tocando as flores brancas com os dedos.

Tirou as sandálias para sentir o verde orvalhado do gramado, abaixou-se até alcançar uma begônia, cortou o caule com as unhas e colocou a flor perto da orelha, nos longos cabelos encaracolados. Lívia deixou que o ar puro daquela tarde de outono entrasse em seus pulmões. Expirou vagarosamente e se deixou cair até se sentar com os joelhos dobrados e as pernas de lado. Retirou a flor dos cabelos com os dedos em formato de pinça e acariciou a coxa direita com uma pétala. Eriçou a penugem dourada da perna por sentir a mão de Otávio na flor.

A conversa animada abafava a voz feminina acompanhada por um dedilhado de violão. Otávio sorria e falava alto, mas em seu coração, uma saudade muda permanecia de olhos fechados. Na mesa, inúmeras garrafas vazias de cerveja sacudiam e se chocavam pelas batidas de mãos durante os argumentos inflamados. O gestual dos amigos às vezes dizia mais do que o volume mais alto de suas vozes podia expressar.

O garçom chegou com mais uma garrafa de cerveja. Otávio pegou o abridor de metal e a abriu. Segurou-a firmemente e encheu o copo dos amigos ao seu lado. Naquele instante, como se tomado por uma força misteriosa, ofereceu o brinde a uma moça chamada Lívia. Estranharam a menção de tal nome, pois não o conheciam, mas não interrogaram o amigo e se entregaram prazerosamente ao brinde proposto.

Os petiscos chegaram: Uma travessa com polenta frita ao molho de gorgonzola, azeitonas pretas, queijo gruyere cortado em cubinhos e um prato de carne seca acebolada com aipim. Esfomeados, mas sem que perdessem o fio da meada da conversação, os amigos atacaram as guloseimas, cada vez bebendo mais cerveja para ajudar na digestão. A jovem cantora tentou aumentar a voz para ser ouvida pelos gulosos conversadores, mas logo percebeu o intento fracassado e a diminuiu tanto que só o insistente violonista ainda se fazia ouvir.

Depois de todos os excessos permitidos quando amigos se encontram num barzinho e de se esbaldarem com a fartura da comida e com a bebedeira, eles se despediram. Prometeram um reencontro. Otávio seguiu acompanhado por dois amigos até uma esquina a partir da qual continuou sozinho, mantendo a linha reta, enquanto os outros dois dobraram à direita. No percurso solitário de volta para casa, Otávio foi seduzido por um inesperado e radiante perfume. Parou de súbito.

Sem pestanejar, ao descobrir o lugar do qual aquele indescritível cheiro vinha, alterou o caminho e seguiu o aroma dos sonhos. Como se fosse uma trilha deixada por alguém, viu várias grandes pétalas brancas pelo chão. Seguiu-as instintivamente. De repente, não havia mais pétalas. Otávio sentiu a fragrância que lhe encantara ainda mais intensa. Levantou a cabeça e viu uma casa de um lado e um grande jardim do outro. As paredes da casa eram brancas e um pouco amareladas na base pelo tempo. Na janela, vasos de flores e, na varanda, decoração de motivação campestre com um espaçoso banco suspenso, para balançar, na calçada.

O perfume irresistível vinha do jardim do outro lado. O portão estava entreaberto. Otávio entrou. Admirado, ele olhou as diversas begônias rasteiras e os altos arbustos de inspiradoras gardênias. Mas nenhuma flor era mais bela que a mulher que viu sentada entre elas. Por um tempo, engasgou-se com as palavras não ditas. O perfume não vinha das flores. Otávio sentia o aroma da Lívia, o cheiro que desde aquele afastamento, jamais esquecera. Tentou chamar o nome dela, mas as palavras insistiam em não sair.

Lívia virou a cabeça e, surpresa, avistou Otávio. Uma lágrima escorreu pela maçã rosada do seu rosto. Aquela forte emoção a impulsionou para os braços do homem amado há tanto tempo desaparecido. Otávio ficou imóvel e se deixou abraçar. Ela encostou a cabeça em seu peito e se entregou a um choro que jamais pôde chorar. Otávio contraiu a face pela forte dor da saudade e da longa ausência. Ele afagou os cabelos da amada e disse que em nenhum momento a esquecera.

A vida os levou para caminhos opostos. Ficaram sem notícias um do outro. Ela fez tudo para reencontrá-lo. Nunca perdeu as esperanças. Mas como não mais o achou, deixou-se levar pelos mistérios das flores, amando-as e sendo amada por elas. As flores o representavam. Não sabia como, mas tinha certeza que suas begônias e gardênias levariam os passos de Otávio até ela. Ele a procurou de todas as maneiras possíveis, sem sucesso. Sabia que o impulso de pronunciar o nome da amada no brinde entre os amigos, era o sinal de que ela estava muito perto dele. Beijaram-se longamente. Abraçaram-se de novo e seguiram, agora de mãos dadas, a trilha das flores para nunca mais se perderem.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.