domingo, 29 de maio de 2011

Na Sacada.














Da sacada do quarto em que estou hospedado, respiro o temperado aroma do mar. Nela eu escrevo. Alguns pinguinhos errantes, órfãos de chuva passageira, colorem o frio da manhã com sabor de orvalho.

Ainda tímido, o sol lança seus primeiros raios em direção à natureza adormecida, envolvendo-a num maternal abraço. Com famintas risadas, gaivotas, fragatas e mergulhões serpenteiam seus corpos lânguidos num alvoroçado bailado de plumas. Seus voos rasantes e circulares indicam a presença de traineiras ancoradas no cais do porto, oferecendo, além do banquete de peixes frescos, um deleite visual.

Aos pés da cruz cravada na areia fofa - símbolo material e histórico de uma missa rezada por jesuítas - um cachorro ladra para o alto do monumento, talvez tentando afugentar algum pássaro insubmisso à catequese, ou reverenciando o passado remoto que se condensa na paisagem que meus sentidos captam. Ao redor desta cruz inaugurada em homenagem à chegada da coroa portuguesa, vários pratos de cerâmica, como se fossem caldeirões de bruxas, de ritos africanos, traduzem a mistura de credos tão estranha e fascinante que adorna o complexo povo brasileiro.

O aspecto lúgubre dos móveis e objetos decorativos da suíte em que estou, na penumbra, contrasta com o adocicado verde-claro da virgindade de folhas beijadas por ventos preguiçosos e brincalhões. Franzidas em feixes de suspiro, as ondas tocam minhas mãos com um som fininho - estribilho assoviado.

Ao fundo, uma cordilheira azulada repousa no sombreado projetado por cinzentas nuvens. Vagarosamente o céu se rompe e cumprimenta o bordado montanhoso de nuanças esverdeadas. Com as bochechas rosadas por pequeninas florescências ornamentais, a saliente vegetação típica daquele litoral afunila nas laterais do cais como longas costeletas mal-aparadas pela navalha do barbeiro.

Obedientes ao regime do tempo, as densas nuvens carregadas de chuva emagrecem, afinam, coroando o cenário costeiro com rabiscos vibrantes. O sabor de maresia dos velhos barcos esquecidos na orla dissemina pigmentos amarelecidos sob as unhas dos dedos que apertam visceralmente a caneta com a qual agora escrevo. Numa ilha não tão distante, o arvoredo solitário esvoaça sua volumosa cabeleira distribuída por sinuosos e desalinhados galhos de um imponente tronco.

Imerso na confluência de sensações que brotam do exterior que contemplo - não de fora, mas integrado no meu íntimo - observo que na casa ao lado, roupas íntimas balançam estendidas no varal. Tal visão denota que não estou só, mergulhado num teatro introspectivo. Aquelas peças desavergonhadas da intimidade feminina acenam para mim, sacudidas pelo sopro leve de trás dos montes - anunciam a existência rebelde que entra em sintonia com afetos cortantes, libidinosos e alcoviteiros.

Espicho o pescoço sobre meu ombro esquerdo para melhor visualizar as particularidades alheias e me deparo, não sem surpresa, com uma jovem mulher deitada de bruços sobre uma esteira de palha. Procuro reprimir meu turbulento olhar, temendo que ela me flagrasse em ato delituoso - invadindo seu espaço privativo -, mas os contornos proeminentes da moça impediam que me desviasse desse enquadre visual. Apesar de ser um dia deslumbrante e inspirador, o clima está frio, com ventos capazes de arrepiar dos pelos da nuca até a espinha dorsal. O que faz então uma pessoa seminua - em trajes de banho - deitada com tal exposição ao relento, no terraço descoberto de sua casa?

Independente de minhas desconfianças e resistências, ela continua lá, insinuando-se ao mar. Bronzeia-se com um sol que de tão inibido, acima das emaranhadas e desajeitadas nuvens, belisca pedrinhas de gelo açucaradas que se dissolvem em contato com as flácidas línguas das palavras soltas no ar. Dizem que o sal levado dos oceanos à margem das praias queima mais do que o intenso calor dos dias quentes de verão. Mas também resseca e deixa a pele quebradiça, desidratada.

Essa moça vai pegar um resfriado rapidamente se ela não se cuidar! Mas o que estou dizendo? Não desejo que ela saia. A exuberância silvestre se decomporia caso ela ouvisse tal estúpida sentença e resolvesse segui-la cegamente. Ela não faria isso! É muito maior do que a significante pequenez de minha consciência.

O apetite insano do meu olhar já se rendeu à escravidão das curvas, reentrâncias nauseadas e desfiles de texturas daquele corpo pulsante e magistral. A natureza que até então detinha a exclusividade do meu desejo ocioso, agora divide terreno com a visão da exótica miragem feminina. Ela não se exibia como um desatento comentário pudesse sugerir. Seus espontâneos gestos, dobrando os joelhos para alçar seus pezinhos em movimentos aleatórios, alternam-se com suaves mexidas dos dedinhos. Essa graciosidade revela que a silhueta da paradisíaca topografia - suas bordas irregulares, informais e curvilíneas - toca o marinho celeste, coincidindo com toda a formosura da moça.

Descobri que minha atenção não cedeu lugar à paisagem humana. Não há diferença entre aquela mulher e a natureza contemplada. Ela também não é apenas uma parte complementar, como o reflexo da luz sobre o espelho d’água. Ela vai além do limite racional, pois sintetiza todo o fenômeno natural que viceja por letras trêmulas e dançantes: O bocejo matinal do astro rei; A saudação das gaivotas aos primeiros barcos de pescadores tiritando de frio após longa jornada de trabalho; O abraço encabulado da manhã ao estender o lençol quentinho na madrugada que chora; As piscadelas dorminhocas do relevo verdinho que responde às generosas carícias da linguagem dos ventos; O espirro repentino das teimosas nuvens molhando a varanda na qual escrevo. Bons presságios saltam em labaredas do corpo de mulher deitado de bruços.

Suas chamas ardem na garganta do meu afetado discurso. Mesmo sem jamais tê-la visto antes, desde o início, enquanto relatava extasiado o amanhecer, era apenas ela, tacitamente, que conduzia o deslizar da caneta sobre a aridez enevoada do papel. Transmitindo o amor em sonoro silêncio corporal, com a calmaria de marolas ninando as embarcações, ela dialogava com o mar inconsciente, influenciava minha percepção e hipnotizava minha mão numa eloquente psicografia.

Acho que ela de alguma forma sentia minha ávida presença na ausência narrativa de meu fictício ser. Ainda tenho dúvidas de que ela existisse de verdade. Em nenhum momento ela esbarrou seus felinos e inocentes olhos com o olhar licantropo deste falso cordeiro que aqui escreve. Apesar disso, acredito que cada minúsculo pelo eriçado e cada imperceptível poro dilatado daquela pele feminina, retumbava numa comunicação primitiva com meu corpo adotado pela experiência sensorial, mas carente de verbo.

(...)

Agora que concluo esta história, alinhavado por agulhas sem novelo e carretel, a noite já caiu, cobrindo com denso véu, o cais que agora se ilumina com brilhantes lâmpadas incandescentes. Nem vestígios da moça. O lugar em que esteve deitada foi lambido pela indubitável escuridão. A esteira de palha também não mais se encontrava lá.

Dizem que à noite todos os gatos são pardos, que ela é inequívoca e coisa e tal, mas acabo de ver um gato preto pilando o muro e cruzando meu caminho. Bem... Isso é outra história. Agora preciso dormir para aguardar um novo amanhecer.

O céu está limpo, estrelado. Talvez não chova...


CRÔNICA ESCRITA por ALEX AZEVEDO DIAS.


P.S. Eu escrevi "Na Sacada" neste final de semana, durante uma manhã em que estive sentado numa sacada - varanda lateral - de um quarto de pousada em Arraial do Cabo. Pude sentir o mundo acontecer, não sem ser eu mesmo - e me aprofundar numa inusitada aparição externa que me despontou no íntimo o impulso literário. Essa sacada dava para a praia dos anjos na qual se localiza o cais. É lá que os pescadores - principal fonte de renda do município -, além da extração de sal, concentram-se, organizando o comércio local. Ao lado, a pracinha inaugurada em homenagem à chegada do navegador italiano Américo Vespúcio, a mando da coroa portuguesa. Em frente a essa praça, a igrejinha construída em 1503: Nossa Senhora dos Remédios. Na areia, em direção à praça, uma cruz de madeira em tamanho natural simboliza a primeira missa rezada em território cabista.

sábado, 21 de maio de 2011

Serenidade.














Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Sabia que não seria capaz de mudar aquele destino. No início protestou, blasfemou, foi à luta. Fez das tripas coração para interferir na violenta realidade que lhe aguardava de braços abertos. Mas apesar dos esforços não medidos, o resultado era inalterável, recebendo apenas a frustração como resposta pela paciente impotência de sua condição humana.

Quando a notícia trágica lhe cumprimentou fugazmente, um sorriso incrédulo resplandeceu no semblante castigado. Pediu que repetisse a comunicação, na esperança que seus ouvidos tivessem lhe pregado uma peça. Mas a sentença fora proferida com todas as vírgulas e pontos em seus respectivos lugares - afastando qualquer possível equívoco que a negação da morte pudesse articular.

Seu sorriso inverteu. Murchou como botão de flor que não desabrocha. Uma súbita necessidade de gritar lhe alfinetou a garganta e acariciou as cordas vocais. Não reprimiria o sincero apelo de suas vísceras em estado de choque. As náuseas aos borbotões não respeitavam a lei da gravidade. Força desumana que lhe corroia o íntimo macerado.

A inquietude de Hana logo adquiriu um aspecto brando e cristalino, ocupada pela serenidade que lhe invadia o espírito condoído. A mãe que morava sozinha em uma casinha no interior de sua cidade natal, logo surgiu em seus pensamentos. O marido e os filhos estavam se divertindo numa viagem de férias e Hana não queria ser a porta voz da desilusão. Ela não teve a licença de seu emprego para se integrar à família na viagem dos sonhos de seus filhos. Combinou com eles que ficaria em casa enquanto eles sairiam com o pai - afinal os momentos com o pai pouco duravam. Além disso, o dia agendado para buscar o resultado de alguns exames estava se aproximando. Há tempos, Hana sentia um mal-estar indescritível. Esteve se consultando com diversos especialistas, até chegar a um clínico que recomendou alguns exames.

Aproveitou o tempo em que passava só em casa e foi pegar o documento que lhe causaria irreversível estrago em seus projetos de vida. Questionou se o poder da descoberta não aceleraria sua partida deste mundo. Talvez, se não soubesse, seu corpo não reagiria com a tal volúpia destrutiva que lhe arrancaria as entranhas. Mas foi aí, com o recorrente desejo de visitar sua mãe que começou um incessante ritual. Deixou os seus pais para crescer na carreira de artista plástica na cidade grande. Em uma das inúmeras exposições de seus trabalhos em galerias de arte, conhecera seu marido, um curador responsável por organizar os eventos artísticos.

A última vez que voltou ao vilarejo em que nascera foi para enterrar seu pai que morrera de ataque cardíaco durante a lida na lavoura. Há quase dez anos só conversava com a mãe por telefone, ainda assim quando combinavam para que ela fosse à rua e ficasse próxima a um telefone público, pois não tinha aparelho instalado em sua casa e não se adaptou com o uso de celulares. Às vezes também contava com os favores dos vizinhos, em caso de urgência, como a notícia da morte do pai de Hana. Sua mãe pediu que um vizinho de confiança desse o recado à sua filha, pois ela já estava fraca para encarar tal missão dolorosa.

Hana sempre insistia para que sua mãe fosse morar com sua família na cidade grande. Mas a velha mulher não suportava a hipótese de se separar de seus pertences rústicos. Jamais admitia a sofisticação das cidades grandes. A filha nunca conseguiu convencê-la de que morasse com ela, nem mesmo de que fosse visitá-la na capital paulista. A única vez que viu seus netos e pôde abraçá-los, foi no mesmo enterro do seu marido - ocasião tão difícil de enfrentar para ambas as mulheres, mãe e filha. Os filhos de Hana gostavam de conversar com a avó por telefone, mas se deslocar até um orelhão público já se tornara um sacrifício para alguém que a velhice já acenava à entrada de seus aposentos. A mãe de Hana foi nascida e criada na mesma casa no sertão da Paraíba, onde teve seus seis filhos, criou-os e os educou bravamente. Um filho morreu durante a juventude em aventuras insólitas pelo mundo afora, à procura de emprego e de diversão. Acabou se envolvendo com contrabandistas da região, contraiu dívidas e foi assassinado em acerto de contas. Três outros filhos se estabeleceram em lugares longínquos também no nordeste brasileiro - afastados do interior. Só um permaneceu na mesma casa, ajudando o pai a cuidar da lavoura até conhecer uma mulher que amarrou seu coração como um vaqueiro laçando o gado no pasto e o levou para Goiás - terra em que o pai da moça era proprietário de uma fazenda pecuarista. Hana, a única filha, nessa época já desenvolvia trabalhos plásticos muito valorizados na Paraíba.

Desde novinha, Hana demonstrava seu afinado talento. Juntava objetos aparentemente inúteis espalhados no quintal, montando belas esculturas, inclusive com sobras de madeira do fogão de lenha, parafusos e britas. Suas obras infantis eram apreciadas pelos vizinhos e enfeitavam a mesinha de cabeceira dos pais ou a humilde arca da salinha na qual a família se reunia para ouvir música no final da tarde.

Quando já estava adulta, um caçador de talentos que passava pela Paraíba, ouviu rumores sobre a riqueza poética dos trabalhos plásticos de uma mocinha do sertão. Foi até lá, comprovou o valor artístico de suas obras e a convidou para acompanhá-lo em sua viagem para São Paulo. Ele propôs matriculá-la numa escola de belas artes para lapidar suas virtudes manuais e visuais, prometendo um sustentável retorno financeiro. Como Hana já era adulta, coube somente a ela essa decisão. Mas o conflito por deixar seus pais sozinhos - era a única filha que ainda continuava ao lado deles - estremecera aquele corpo que também recebera belos retoques artísticos pela genética de seus genitores.

Mas, como era de se esperar, sua vocação vencera o medo da distância. No dia seguinte à proposta do caçador de talentos, Hana já arrumava suas malas com as modestas peças de roupa ocupando a menor parte do espaço. A maioria absoluta do espaço das malas fora ocupada por suas esculturas prediletas para apresentar à escola de belas artes. Dois dias depois, embarcou para São Paulo sem previsão de regresso. Despediu de sua mãe com lágrimas nos olhos e deu um abraço apertado e demorado em seu velho pai.

(....)

Já com a morte jogando pedrinhas na janela do seu quarto de dormir, com a ideia fixa de visitar sua mãe e de repousar no colo da encantadora natureza na qual cresceu, Hana amadureceu seus planos para viajar de volta ao sertão paraibano. Sabia que não seria fácil tal empreitada. O problema não era o preço de uma passagem de ônibus ou de avião, afinal ganhava muito bem com suas exposições, mas a duração da viagem e a conversa que teria com seu marido e filhos, justificando seu desejo.

Não é que ela devesse explicações à família, mas seu lugar de esposa e de mãe já deixava transparecer uma saudade antes mesmo de partir. De qualquer forma, precisa ter uma séria conversa com seu marido, transmitir-lhe a notícia de sua brevidade, e combinar com ele a melhor maneira de contar que sua partida não resumiria a uma simples viagem para outro estado do país. Ela não confiava na possibilidade de um filho assimilar a morte da mãe, muito menos na idade deles. Como superar essa partida. Como lidar com a perda? E a sua perda, em deixar seus filhos? Pensou em adiar essa conversa. Seus sentimentos eram comprimidos como o teto que desce e achata a cabeça dos prisioneiros nas câmaras de tortura que via nos filmes. Esperou o marido e os filhos voltarem de férias.

No meio de prantos e indignações, soluços e amarguras, Hana enxugou uma lágrima do rosto de seu marido que mais parecia um tristonho orvalho ao escorregar pela macia folha verde - como um choro baixinho - antes de secar e subir como vapor d’água para o sol da manhã. Resolveram que poupariam os filhos de maiores detalhes. Contaram apenas que Hana faria uma viagem longa para cuidar da vovó que já estava bem idosa e não poderia continuar sozinha. Precisava do auxílio de sua filha para o serviço doméstico e outros afazeres. Seus filhos protestaram um pouco pelo afastamento da mãe, mas rapidamente compreenderam a situação e se convenceram de que a mãe precisaria fazer tal viagem.

Os filhos fizeram-na prometer que em breve ela voltaria. Esse pedido amoroso e carente dos filhos provocou alguns soluços que logo contiveram o choro doído para não causar sofrimento nos filhos. Hana reprimiu as lágrimas e as trocou por um leve sorriso. Os filhos visivelmente emocionados, mas alegres em ter sua mãe por perto, saltaram no pescoço de Hana e todos deram um demorado e gostoso abraço. Ficaram naquela posição por um bom tempo, até que eles se recuperassem do impacto afetivo e descansassem do choro. Hana os colocou para dormir, cobrindo-os e beijando as pequeninas testas dos filhos e foi para o quarto com o marido.

(...)

Hana chegou sem avisar no final da tarde. Sua mãe estava sentada em sua cadeira de balanço na varanda da antiga casa, fazendo uma colcha de crochê. Ao ver a filha se aproximar, ela se levantou com dificuldade pelas dores no corpo, mas sem senti-las, mergulhada que estava na emoção do reencontro, e se esforçou para chegar até a filha - o máximo que seus frágeis ossos lhe permitiram. Mas Hana, deixando suas malas soltarem de suas mãos, até tombarem no chão de barro, foi em direção à mãe, correndo de braços abertos. As duas mulheres machucadas pela vida abraçaram-se com tal singular vibração que só amor entre a mãe e sua filha é capaz de explicar. Aquele instante sublime encurtara quilômetros de distância e quase dez anos de um tempo que separou as duas fisicamente, mas não em seus corações.

(...)

Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Não tinha mais do que temer. Encontrara sua mãe, seus filhos estavam aos cuidados de um pai generoso, atencioso e dedicado. Logo ele encontraria uma mulher igualmente carinhosa que cumpriria a função de mãe na educação de seus filhos. Sentia a falta de todos, assim como doía saber que os seus também levariam tempo para assimilarem sua partida. Mas a certeza que estavam todos bem direcionados na vida, que fizera um bom trabalho, confortava-a, mesmo que não plenamente.

Estava naquele lugar, pois a natureza da sua infância a havia chamado. Precisava se reconciliar com aquele lugar há muito tempo esquecido. Retornara à sua alma com tamanha vivacidade e júbilo íntimo, despertando uma sensação afetuosa como o afago de seus pais e irmãos. O sentimento era tão puro e acolhedor, que subitamente sentiu sonolência. Uma moleza prazerosa começou em seus pés e foi subindo lentamente até relaxar a sua face antes contraída por algumas preocupações.

Deixou seu corpo reclinar levemente até encostar-se à grama fresca com um tom claro de verde. Há muito tempo não sentia o cheiro do mato, não ouvia o som dos pássaros e das águas apressadas dos riachos. Com os dedos, cavou um buraco na terra e entrou em contato com a umidade juvenil do solo. Estava muito satisfeita em dialogar com sua natureza interior representada em cada sentido seu que contemplava a flora de sua terra natal, tocando-a. Fechou os olhos e se permitiu tatear todas as folhinhas em que seu corpo repousava. O cheiro do sol se pondo, misturado aos pinguinhos do riacho que pulavam em seu rosto quando as águas se encontravam com as pedras, compuseram fielmente o deleite daquele inesquecível momento.

Logo, suas preocupações se afastaram, seus pensamentos foram esvaziando até não mais assustá-la. Hana era puro sentir, era puro tato, olfato e audição. De olhos fechados, sem ver com os olhos carnais, absorvia o sabor das imagens de paz que presenteavam seu paladar. Serenamente Hana adormeceu. Não pensava em nada, não tinha dor. Só ouvia a cantoria das aves - saudando-a -, sentia o cheiro do mato, do rio, e o sabor da suave melodia que lhe acariciava como a pétala da flor que seu pai lhe ofereceu nos seus quinze anos.

Com o passar das horas, Hana se desapegou do seu ser. Hana não era mais Hana. Ela era cada gotinha do riacho que escorria por sua face em límpida placidez. Ela era a canção dos pássaros, o sabor da terra molhada e a textura verde da grama. Hana passou a ser apenas a sua natureza... E partiu serenamente.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

sábado, 14 de maio de 2011

O Misterioso Homem do Café.














Pela calçada de pedrinhas portuguesas em formato de mosaico, já estufada por salientes raízes das árvores decorativas, caminho em direção à hospitaleira cafeteria do outro lado da rua. Acelerei o passo para secar ao vento os últimos vestígios de roupa encharcada, ainda resistentes, deixados por uma rápida tempestade que me pegou desprevenido já no trajeto para o café. Ao atravessar as principais ruas, no horário em que a maioria das pessoas larga o experiente, observei rostos apresados, satisfeitos, aflitos, invisíveis, contemplando a grandiosidade do instante, ou mesmo entregues à pequenez do momento.

Alguma cumplicidade me laçava a cada um daqueles rostos, inclusive os que ostentavam um afeto paradoxal, indistinguível aos meus olhos complacentes e enevoados. Quanto mais me distanciava do espaço central no qual a multidão se entrecruzava, os semblantes se desanuviavam, adquiriam maior leveza, esvaziando-se das energias caóticas e pardacentas.

Essa cafeteria fica num ponto pouco frequentado, ideal para um público - que seja o mínimo possível, claro - com certo grau de misantropia, palavra que acredito ser mais sofisticada e possuir uma atmosfera mais obscura e enigmática do que a sua irmã curta e grossa: a palavra “antissocial”. Talvez, ao contrário do que possa parecer para mim, tentando camuflar um pouco algumas realidades, a palavra “misantropia” só seja usada pelos próprios antissociais. Mas a minha se resume apenas a não participar das conversas como um protagonista - embora os acontecimentos nos peguem de surpresa e nem sempre é possível manter tal isolamento -, pois participar da mesma com a invisibilidade necessária para apenas escutá-la sem ser visto, pode ser considerado meu hobby predileto, inclusive sendo condição para que eu escreva estas linhas.

Sentei-me à mesa, já com o pedido feito, e olhei ao meu redor para me certificar que o ambiente estava propício para a prática da minha passividade. Realizando meus impulsos voyeuristas, notei que entre a mesa à qual estava sozinho, saboreando meu cappuccino, e as demais mesas, havia um espaço vago confortável - traduzindo: nem uma viva alma estava por perto. Mas ao visualizar um ponto mais afastado, percebi que havia um sujeito solitário como eu, com a diferença que ele estava finalizando seu ato de canibalismo, comendo um sanduíche e bebendo um refrigerante - embora devorasse a si mesmo achando inocentemente que comia apenas um pão com carne.

Ele parou de comer repentinamente, recostou-se no espaldar da cadeira, pôs as mãos no queixo, com ares de enfado, apoiando a cabeça com os cotovelos sobre a mesa já bagunçada pelos restos de sua gula. Eu continuei deleitando meu paladar com o cappuccino cremoso e quentinho, acompanhando-o com um olhar taciturno. Mantendo a mesma posição, virou levemente a cabeça para seu lado esquerdo, em que havia uma barra de ferro, semelhante a um corrimão, e logo desfez sua inércia, apoiando agora os braços nessa mesma barra, substituindo a função da mesa na qual repousava. Já apoiado no corrimão, com o corpo virado para o seu lado esquerdo, novamente deixou a cabeça sobre suas mãos e se demorou como se tivesse prestando a atenção em algo. Seus olhos esboçavam um sorriso, apesar de sua boca não se mexer. Como se fosse um dedo apontado, segui o seu olhar para saber o que tanto o seduzia silenciosamente.

À sua frente - também para a minha surpresa -, com algum esforço para ver, debruçando-me sobre a mesa, pois uma pilastra tampava minha visão, havia outra mesa ocupada por quatro mulheres de um lado, já de idades avançadas, e um casal vestido elegantemente. O homem continua virado para a esquerda, com os cotovelos apoiados na barra de ferro e a cabeça repousando sobre as mãos. Ele olha fixamente para o grupo de pessoas. Por um momento, mesmo sendo uma remota hipótese, penso que de alguma maneira ele pertencia ao tal grupo. Mas eles ignoravam sua presença.

As quatro mulheres estavam muito sérias, quase nem piscavam. Só o casal sentado junto em um dos lados que falava como se tivesse instruindo as quatro mulheres do outro lado da mesa. Elas prestavam absoluta atenção nas orientações do casal. Será que seriam testadas para entrar em algum tipo de clã ou sociedade secreta? Ou eram as vítimas de um seqüestro e seguiam as regras do jogo para se libertarem? E o homem misterioso que só os observava de outro lugar? Mas eu também era um homem misterioso que os acompanhava com o olhar, inclusive acompanhando o homem misterioso que observava o grupo da outra mesa.

Como numa possessão demoníaca, o homem solitário começou a puxar assunto com o grupo, falando sem parar como uma metralhadora giratória monologada. O grupo imediatamente silenciou. O casal, tendo suas instruções interrompidas pela invasão do solilóquio estrangeiro, teve a automática reação de olhar o sujeito esquisitão que não fechava a matraca. Já as quatro mulheres, mesmo percebendo que o som agora vinha de outro lugar e que o casal agora estava mudo, continuaram estateladas na mesma posição anterior, olhando fixamente para o casal mudo.

Eu não conseguia ouvir o que o homem misterioso falava. Será que era mais um comparsa dos seqüestradores que agora revelara sua identidade e se unia aos algozes para castigar as pobres vítimas? Em meio ao discurso inaudível pela distância em que estavam, notei que por um aceno de mão, o casal convidou o estranho para se sentar à mesa do grupo. Ele se levantou rapidamente da cadeira em que estava e se locomoveu até o grupo. Ele só se calou durante esse percurso, pois retomou sua fala histriônica logo que se sentou ao lado do casal.

Ele tinha um tipo suspeito, talvez por estar antes sozinho, mas eu também estava sozinho sentado à minha mesa, então, se eu pudesse me ver nessas condições, também me acharia um tipo suspeito. Durante todo o tempo em que o ex-solitário não parava de falar, todos permaneceram calados e olhando para ele, com exceção das quatro mulheres que não abriram a boca e nem se deram conta da presença do estranho, pois continuaram sem tirar os olhos do casal mudo, como se fossem quatro autômatos.

De repente, o homem misterioso bateu na mesa com a palma da mão, deu um salto, abraçou o casal que nem sequer se mexia com o tal gesto supostamente afetuoso, e se despediu, dirigindo-se para a saída. O grupo ficou um pouco ainda em silêncio, inclusive o casal, como se estivesse atônito, tentando se recuperar de um choque anafilático, mas logo retomaram a discussão, rindo um pouco para descontrair. Uma das quatro mulheres, como um ato totalmente inesperado, imitou a risada do casal e fez um breve comentário - também inaudível para meus ouvidos discretos. Foi aí que me dei conta que naquele grupo ocorria uma entrevista de emprego.

O casal era de gerentes da cafeteria, e as mulheres, assustadas, as candidatas ao trabalho de balconista. Comecei a ouvir o argumento do casal, afirmando que os funcionários daquele estabelecimento era uma família e que se houvesse algum problema de convivência, não deveriam levar desaforo para casa, contando aos gerentes o acontecido. Mesmo o casal de gerentes ser bem mais novo que as quatro mulheres, ele estava atraindo a confiança das quatro com um discurso paternalista de proteção - claro, esperando controlar todas as possíveis situações que se passassem com suas funcionárias. As quatro, um pouco mais relaxadas, ouviam atentamente as instruções dos dois.

A conversa não se alongou muito após a despedida do homem que continuou sendo um mistério para mim. Logo o grupo se desmanchou. As quatro pretendentes ao cargo foram embora. O casal continuou sentado esperando a saída das mulheres, mas após essa saída, debateram um pouco sobre elas. Depois, levantaram-se abraçados, muito sorridentes, e retomaram suas funções na cozinha da cafeteria. Já eu, segurando o fôlego para tomar a última golada de um cappuccino já frio, depositei a xícara vazia sobre a mesa. Novamente sozinho, recostei na cadeira e me pus a refletir como começaria a escrever esta estória que acabo de encerrar por aqui.


CRÔNICA ESCRITA por ALEX AZEVEDO DIAS.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Adèle e Ismael.














Ismael sentia calafrios só de pensar em Adèle - mulher faceira e perigosa. Gestuais sinuosos e frágeis, formando símbolos no ar pela firmeza de suas mãos, ao penetrarem o sólido terreno da linguagem corporal, contrastavam em labaredas de uma personalidade que derretia os menos avisados ao ousarem chegar muito perto da moça.

Uma irresistível atração não permitia que Ismael se afastasse de Adèle durante as inúmeras repetições do seu vozerio atordoante. O tempero da relação dependia dessa pitada de fúria latente, aquecendo o casal debaixo dos lençóis. Quando a ferocidade se convertia em volúpia, ambos terminavam engalfinhados até no piso frio ou no carpete empoeirado. Só que o mesmo deslimite que emprestava suficiente virulência para os prazeres íntimos, explodia em desafiadoras lâminas que se embebiam em envenenados curativos.

A ação impiedosa da boca maldita era capaz de decapitar qualquer resíduo de satisfação sonolenta que tivesse a audácia de colocar o pescocinho para fora dos panos em que Ismael jazia intrépido em noites mal dormidas. A tônica inflamada sempre recaía em Ismael - que nada se assemelhava a uma ingênua vítima. Na expectativa de ser agraciado pela seiva bruta daquela mulher, provocava-a até tirá-la do sério. Adèle soltava fogo pelas ventas. Quando chegava a esse extremo, de tão ardida que era a pimenta usada para lapidar a libido e animar a festinha particular, invariavelmente Ismael saía chamuscado da contenda. Adèle esbravejava, sacudia-se, estapeava-o.

Embora Ismael se reduzisse a um estado deplorável, não se ofendia pelas reações intempestivas da mulher. Muitas vezes, submerso no festival de pancadarias e bordoadas deixadas pelos punhos, joelhos e unhas da irascível Adèle, Ismael se surpreendia com certo gozo pornográfico que exalava de suas feridas. A fúria incontrolável da mulher causava tantas excitações quanto mais pulsantes eram as dores físicas. Após os primeiros tabefes, apesar de acuado e severamente machucado, já respirando com dificuldade e dobrado sobre as pernas, em forma de concha, pelo impacto sofrido no diafragma, Ismael teve uma leve dúvida - com mais certeza do que desconfiança - que naquela posição humilhante, um estranho frenesi percorria enfaticamente os seus membros inferiores.

Logo a certeza irrefutável substituiria a cambaleante dúvida. As dores impressas em seu esmurrado corpo franzino caminhavam de mãos atadas com a crescente manifestação de um erotismo súbito, indecoroso e desavergonhado que vibrava em suas partes baixas. Cada pancada era uma alegria com cara de agonia. Sorria com o semblante contraído, revelando falsa angústia. Celebrava cada arranhão na alma introduzido por seus pequeninos olhos assustados. Em meio aos destroços de si, da dor impingida por cada mordida ferina da mulher, reconhecia que o sentimento que lhe cumprimentava em seus refolhos mentais só poderia ser a tal da felicidade.

E assim se sucedia a crueldade apaixonante de Adèle. Atração fatal que produzia um empuxo no faminto desejo de um homem que implorava pela maciça e exclusiva presença daquela que o arranhava por inteiro, mas que, enquanto isso, ela não seria de mais ninguém. Ele pedia e ela o torturava. Ela o feria e ele negava o prazer, acusando-a.

Ismael sentia calafrios só de pensar em Adèle - mulher faceira e perigosa. Talvez ele não a amasse, mas amava ser seu foco de extermínio. Era assim que ele existia, era assim que ele garantia seu lugar no desejo de Adèle. Sentia-se vivo ao apanhar. Mas não de qualquer uma. Apenas da Adèle - mulher faceira como erupção e perigosa como uma pétala de rosa.


ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

O Reinado das Cores num Reino sem Cor.














Em seu reino, o rei Florêncio atravessava dias sem cor. A fauna e a flora desse reino foram desbotadas por uma enigmática clareira que se formou no centro do palácio. Ao contrário do que a lógica aponta, essa clareira não iluminou o reino, mas sim o fez escurecer gradativamente até quase apagá-lo do mapa, engolindo-o em trevas.

Uma névoa de forte claridade desceu das montanhas geladas e reduziu as esplêndidas nuances de cores ferventes, numa morna escala de cinza. A princesa Mércia que cantarolava em círculos com suas filhas, tomada de espanto, soltou-se das mãos das crianças e, como que se engasgando com o ar, levou uma das mãos à boca. Já as meninas, maravilhadas que estavam com os tons cinzentos, preencheram o espaço vazio da ciranda - ocupado pela ausência da mãe - e entoaram cânticos em reverência ao fenômeno inusitado.

Para elas, o colorido não havia as abandonado, pois pela primeira vez, entraram em contato com uma palheta de variações do cinza que antes não existia. O rei Florêncio, surpreendido pelo comportamento das netas, substituiu o pavor que o engessava pela livre curiosidade infantil. Aproximou-se da clareira enegrecida, tocou-a e teve a experiência de uma mágica transformação dos pigmentos de sua pele de ancião, rejuvenescendo. Com isso, e por ser um monarca astuto e ousado, decidiu polinizar as cinzas flores do seu jardim com a névoa estrangeira.

Quando as novas plantinhas nasceram e floresceram, embora ninguém visse mais beleza nas cinzentas flores, as crianças cada vez mais cantaram em torno daquelas que foram relegadas à margem do reino.

Com o passar do tempo, a alegria das crianças contagiaram os adultos que viram pela primeira vez o colorido das flores e sentiram seus magníficos perfumes... Apesar delas jamais deixarem de ser apenas cinza.


ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS

terça-feira, 3 de maio de 2011

Meu Livro de Contos Publicado.


Meu livro de contos foi publicado e já está à venda. São 37 contos de minha autoria reunidos em 276 páginas. Como a gráfica da editora só imprime um exemplar sob demanda, é necessário se cadastrar na página da internet em que meu livro está em divulgação para comprá-lo.
Para adquirir um exemplar impresso do meu livro, acessem o site:
- Acabamento da capa: Papel Couché 300g/m², 4x0, laminação fosca.
Acabamento do miolo: Papel offset 75g/m², 1x1, cadernos fresados e colados, A5 Preto e Branco.
Formato: Médio (140x210mm), brochura com orelhas. -

ÍNDICE DO MEU LIVRO:
09 -----------------------------------------O Montinho de Livros
19 -------------------------------------------------- Morte na Folia
33 --------------------------------------------------------------- Cléo
39 --------------------------------------------------------A Amante
47 ------------------------------------------------------------- Katie
57 ------------------------------------------------O Baú Sonhador
69 -------------------------------------------------------Pedro Bege
77 ------------------------------------------------ Transamazônia
86 --------------------------------------------------A Ressurreição
99 ---------------------------------------------------------------Sexo
103 ---------------------------------------A Máscara da Verdade
109 ---------------------------- Romance em Tempos Perdidos
117 -----------------------------------------------------Elias Feijão
123 -----------------------------------------Jurandir, O Químico
131----------------------------------------------Túlio e o Terreiro
139 ------------------------------------------------------Eu Te Amo
149--------------------------------------------- Plácido, A Rainha
155-------------------------------------------------Cafés com Leite
163 --------------------------------------------------------Diálogos?
167 ------------------------------------------------------ Sapatando
173 ------------------------------------------- O Besouro de Praia
177 -----------------------------------------------------O Chamado
181 ---------------------------------------------------------À Janela
187-------------------------------------------------À Mesa do Café
193 --------------------------------------------------------Pedrazul
199 ----------------------------------------Santo Pai, Santa Bala
203 ------------------------------------------------Marta, Mulher
205 -------------------------------------- No Escorrer dos Afetos
211-------------------------------------------------O Amor do Ódio
221-----------------------------------------Quando o Sonho Vive
229---------------------------------------------A Análise de Lena
237--------------------------------------------------Dedos e Anéis
245------------------------------------------------------Toque-me!
251--------------------------------------------------Ser Sem Rosto
257--------------------------------------------Lágrimas e Suores
263----------------------------------------------------------O Vulto
269-------------------------------------------Estilhaços de Alma


Histórias armazenadas no baú do inconsciente infantil. Páginas em branco à espera do folclórico traço do autor. Desaparecimentos espetaculares. Retornos fantasmagóricos.

A confluência do imaginário com a realidade. Qual o ponto em que a ficção toca a realidade?

Será a ficção um conto fictício, ou realidades ditadas pela narrativa ficcional?

A literatura talvez não seja literal – mas litoral – fronteira de fantasias – a verdade do escritor.

Neste livro de contos, Alex Azevedo Dias escreveu estórias surpreendentes que levam o leitor a enigmas com inúmeras possibilidades. A inquietude fascinante da dúvida, contrapondo-se ao amortecimento das soluções.

Seus contos fazem pensar, refletir, rir e chorar. Um fôlego suspenso até a última linha. Personagens que vivem as situações-limite entre falsas realidades e fantasias reais

http://clubedeautores.com.br/book/36753--Os_Sonhos_Despertos

Agradeço e dedico o meu livro aos leitores deste blog no qual meus contos também estão publicados, e aos amigos queridos que me acompanham. Desejo uma excelente leitura! Espero que encontrem boas inquietações, calmarias, e os afetos essenciais para a existência, como tristeza e alegria. Abraços, Alex.


sábado, 23 de abril de 2011

Dedos e Anéis.














Com as mãos abarrotadas de sacolas de compras, Rebeca caminhava do centro da cidade em direção à sua casa. Para isso, precisava pagar o bilhete na estação das barcas, antecipadamente, pois estava com pressa e aquele era um meio de transporte que não ficava disponível com frequência. Como morava do outro lado da cidade, não havia alternativa de condução além das barcas para atravessar a baía que a separava do tranquilo bairro no qual residia.

O vozerio da multidão consumindo as muambas do camelódromo misturava-se aos gritos entusiastas dos anunciantes, oferecendo produtos de qualidade duvidosa. Rebeca gradativamente se afastava da balbúrdia do mercado informal em franca ascensão, e se aproximava de uma região um pouco mais vazia. O som enlaçado dos compradores e dos vendedores, ora abafando-se num desgrenhado falatório, ora ampliando-se em pandemônios fonéticos, pela distância de Rebeca, ficavam cada vez mais inaudíveis - alívio para os tímpanos condoídos.

Já distante do ápice carnavalesco dos comerciantes, afunilou ainda mais o vai e vem aturdido das pessoas na rua, filtrando o excesso da corriqueira agitação. Ao chegar à passarela - passagem mais segura para alcançar a outra margem de uma perigosa avenida -, única opção para acessar a praça da estação das barcas, Rebeca, que vinha alternando uma leve distração com as vitrines e a rotineira preocupação com os afazeres domésticos que por ela esperavam, de repente, percebeu que o lugar no qual se encontrava estava completamente deserto, silencioso, e com um odor azedo de que alguma coisa sinistra a aguardava.

- Isso é um assalto! Passe-me a aliança!

- O que é isso, meu senhor?!

- Você não ouviu? Passe-me, agora! Estou armado! Ou me dê sua aliança ou lhe arrancarei o dedo!

- Mas eu nem sou casada!

- Olhe, dona... Não me interessa se você é casada ou não... Passe-me a aliança, agora!!

- Ter este anel no mesmo dedo em que uma mulher casada põe sua aliança é mera coincidência e...

- Você quer morrer? Está de brincadeira comigo? Não tem noção do perigo?

Seu primeiro impulso foi se adequar à linguagem do bandido, incorporá-la automaticamente, mas por razões inexplicáveis, ele falava sua língua.

- O senhor tem uma voz impostada, típica de locutores de rádio. O que está fazendo aqui em vez de exercer essas abençoadas cordas vocais que Deus lhe deu?

- Atirarei em você caso não coopere comigo! É meu último aviso!

- Você é um homem instruído.

- Sim. Recebi boas instruções para roubá-la. Um comparsa localizado no comércio me passou as dicas, descrevendo-me suas feições e posição - sozinha, sem companhia.

- Não. Falo instruído no sentido de letrado. Sei que a vida é cruel, que não tem misericórdia dos que sofrem. Mas o senhor tem uma boa aparência, bem apessoado, além de utilizar a gramática como ninguém. Sua professora de português deve se orgulhar do aluno que você foi. Aliás, não estou sozinha. Estou com o senhor, aqui.

Com os olhos marejados e já meio inchados, o assaltante respondeu:

- Você foi a primeira pessoa que notou o meu português... Fiz Curso Normal. Tornei-me educador e professor no ensino fundamental. Mas os desafios com os precoces alunos da rede pública e o salário miserável que em nada compensava o esforço não permitiram que eu continuasse com meus sonhos.

- Mas o senhor ainda é muito jovem! Ainda tem muito pela frente...

- Você que é otimista... Depois que fracassei, não podendo mais enfrentar a barra que era cuidar e ensinar aquelas crianças em sala de aula, e sem ter condições para colocar comida na mesa das minhas crianças, dos meus filhos, eu então me profissionalizei no mundo do crime.

- O senhor é um rapaz muito simpático. Deve formar uma família linda com seus filhos!

Voltando à realidade daquele contexto, pois entregue a um lapso emotivo perdera o foco, o sujeito resgatou sua postura cênica - engrossou a voz e enrijeceu o semblante -, empunhando o revólver.

- Escute aqui, moça... Isso é um assalto!

Instintivamente, varando o ar, a mulher acertou a cara do assaltante com um tabefe, digno de câmera lenta, com toda a força que seus bíceps lhe permitiram. O assaltante, não prevendo tal reação, derrubou a arma e levou sua mão ao rosto, na tentativa de amenizar o impacto.

- Você estava caindo em tentação, virando novamente um bandido. Eu precisei lhe dar esse bofetão para ter certeza que em suas veias ainda pulsava alguma gota de sangue.

- Quem você pensa que é para me bater desse jeito?

- Apenas uma pessoa como você...

Nesse instante, o assaltante se impulsiona e salta na garganta de sua vítima, furioso. Rebeca dá um passo para trás e consegue se esquivar do bote quase fatal.

- Espere! Não fique irado! Desculpe-me...

Já espumando de raiva, o assaltante se abaixa para pegar o revólver, mas nada encontra.

- Cadê a minha arma? O que fez com a minha arma?

- Não fiz nada. Eu só a vi quando caiu e...

- Basta! Basta!!

O assaltante virou o braço com uma energia descomunal, tentando esmurrá-la. Ele rodopiou no vazio em um giro de trezentos e sessenta graus e desabou de joelhos no asfalto úmido por sua excessiva transpiração. Olhou atônito em seu redor e não avistou mais ninguém. Em cima de seu revólver, um anelzinho fosco de cor amarela repousava em leito póstumo. Pegou o revólver e deixou o anel rolar desprezado até tombar sobre a tampa enviesada de um bueiro.

Colocou sua arma na cintura - entre o cinto frouxo, por baixo da camisa de botão -, e novamente lançou o olhar em direção ao anel. Foi até o bueiro, agachou-se, e apanhou o anelzinho. Verificou-o suficientemente para constatar que fora produzido em latão, sem o menor valor de mercado. Deu de ombros e ameaçou jogá-lo no vácuo do esquecimento. Mas algo o deteve, revertendo sua intenção de se desfazer do artefato. Sentiu seu braço bloqueado por uma corrente de vento sobrenatural e uma vontade irresistível de examinar o anel. Ao passar o dedo na superfície interna do objeto, percebeu uma inscrição em revelo. Ao ler o que estava escrito, um frio cortante gelou sua espinha. Seu nome estava gravado naquela aliança.

(...)

- Juan, acorde! - Vociferou a professora.

- Você estudou a matéria? Teremos uma avaliação surpresa.

- Ahm.. O quê? Perdão, professora.

Todos os colegas caíram em gargalhada pela distração de Juan que o levou a ser chamado a atenção pela professora. Rebeca era uma professora severa, mas sua rigidez representava apenas a exclusiva dedicação que dispensava à sua turma de português instrumental. Ela sabia do potencial de Juan. Escrevia belas redações sobre sua realidade cotidiana na favela em que morava. Tinha um talento ímpar para a escrita criativa, com afinada coerência em suas narrativas e na composição de personagens. Mas para complementar o salário de seus pais, que mal dava para pagar as despesas domésticas, Juan trabalhava como guia turístico na praça histórica da estação das barcas. Por isso a sonolência do garoto durante algumas aulas, reflexo da extensão do trabalho nas épocas em que uma grande quantidade de turistas solicitava seus serviços.

Como a professora de português morava do outro lado da cidade - embora desse aulas numa escola municipal próxima à casa de Juan -, ela diariamente atravessava a baía, passando pela praça em que trabalhava seu aluno. Algumas vezes, quando Rebeca não tinha maiores compromissos que restringissem seu tempo, ambos conversavam - professora e aluno - animadamente, sempre se maravilhando com o amplo conhecimento do garoto de história e geografia. Rebeca costumava elogiar o emprego gramatical do seu aluno, tanto pelo seu modo desembaraçado e articulado de falar, quanto pela forma impecável de escrever.

Rebeca sabia do futuro brilhante que esperava por Juan, mas os seus pais discordavam das afirmações deslumbradas da professora. Eles agradeciam a insistência daquela mulher em apostar no garoto, mas não tinham a menor dúvida de que se ele não fosse capturado pelo caminho do tráfico, não assumiria posto mais alto do que servente de pedreiro.

Juan nutria um carinho especial por sua professora. Confiava em suas sábias palavras. Mesmo sofrendo pela falta da crença de seus pais em sua grande possibilidade de vencer na vida, sabia que sua professora não jogaria palavras ao vento. Ela estudou, por isso, tudo que dizia teria valor.

(...)

Nos momentos em que perdia as esperanças, ferido pelo sentimento negativo que seu meio lhe transmitia, sentava-se na praça das barcas, quando não havia turistas por perto, e esperava sua professora passar. Costumava observar seus dedos para ver se ela era casada. Mas ela nunca usava anéis, muito menos uma aliança. Para recuperar o fôlego e a alegria de estudar e trabalhar imaginava-se no altar, depois de crescido, atuando no magistério, tendo a mão de sua professora entre as suas. Ajoelhado diante dela, Juan colocava o anel de ouro legítimo em seu dedo anelar, com a felicidade de uma criança que acabara de abraçar sua mãe verdadeira.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Análise de Lena.














Bateu à porta. Ninguém a atendeu. Pensou em ir embora. Era a primeira vez que estava ali e, por um instante, pareceu que tal encontro não lhe seria útil. Antes de bater novamente à porta, girou a maçaneta e se surpreendeu por estar destrancada, como um sinal de que sua chegada já era esperada. Após entrar, encostou a porta e se sentou num sofá, estilo rústico, com grandes almofadas. Como a tensão a reprimia, pois sentia que daquele lugar não teria mais volta, não percebeu que se recostasse nas almofadas teria uma confortável sensação de descanso. Permitiu-se apenas passar levemente as mãos no forro do sofá, apalpando a textura do tecido - macia no centro e áspera nas bordas -, como se tateasse o próprio coração que, aflito, palpitava.

Um sombreado se precipitou pela fresta da porta do corredor, e alguém acenou discretamente em sua direção, convidando-a para entrar. Timidamente se deslocou até o local em que o homem a chamava. Entrou em uma sala à meia luz, colocou a bolsa em um pequeno banquinho, cumprimentou o homem sentado numa poltrona no canto da sala e se deitou no divã. Trêmula, tirou um cigarro da carteira, pediu licença e entregou-se ao fumo, tragando ponderadamente as fumaças.

O analista estendeu-lhe um cinzeiro sem dizer nenhuma palavra. Ao ver o objeto ofertado, depositou sem titubear o cigarro - que estava suspenso entre os dois dedos da mão direita -, ainda quase sem fumar, e no cinzeiro amassou a ponta transformada em fuligem contra a superfície de mármore. O filtro dobrou-se sobre sua mão num último arfar suplicante. Ela apertou os braços sobre o peito e suspirou.

(...)

Lena, alguns meses antes, já quase entregue aos dramas pessoais que vinham angustiando-a em escala crescente, vencida pela própria fraqueza, resolveu aceitar a sugestão da amiga de procurar ajuda. Consultou uma lista telefônica, na seção em que profissionais da saúde oferecem seus serviços, buscando somente entre os que se intitulavam psicanalistas, o nome com o qual mais se identificasse. Deslizou o dedo indicador por uma dezena de nomes e, intuitivamente ou pela simples razão de estar com as falanges do dedo queimando, pela rigidez da escolha, repousou-o de forma imperceptível sobre um dos nomes. Quando se deu conta do seu ato inconsciente, suspendeu o dedo e o nome escolhido estava lá, saltando à sua vista: Godofredo - psicanalista.

No primeiro instante em que passou os olhos por aquele nome, teve um impulso de rejeição. Não teve a menor atração pela palavra “Godofredo”. Se fosse uma escolha consciente, jamais teria se identificado com aquele nome. Mas como era muito supersticiosa, acreditou piamente que se o seu dedo havia repousado justamente ali, não seria ao acaso. Alguma força oculta e poderosa forjou a certeira e objetiva escolha de Godofredo.

Hesitava em se apresentar para entrevista com qualquer analista que fosse, mesmo com a insistência de sua amiga que tanto a aconselhara a marcar uma sessão de terapia, utilizando-se como exemplo, falando de sua bem-sucedida experiência com seu analista, de suas conquistas e descobertas. Lena sabia que já não era possível mais viver com os ombros pesados pelos problemas familiares e que o tempo de se consultar com um profissional estava se impondo radicalmente. Mas ainda assim adiava aquele primeiro encontro, reunindo todas as forças que ainda lhe sobravam para resistir.

A questão era que ao ler justo o nome que seu dedo estranhamente apontara - embora tais letrinhas não fossem do seu agrado -, não teve dúvidas de que ele era o escolhido, de que havia chegado o exato momento de ultrapassar suas barreiras, desarmar-se contra o preconceito que tinha de analistas e agendar uma entrevista. Anotou o número do telefone do seu consultório, mas não ligou de imediato. Guardou o número num pedaço de papel dobrado e esperou até a manhã do dia seguinte. No horário que reservou para telefonar, sacou seu aparelho celular da bolsa, junto ao papel dobrado, e digitou os números no teclado com uma rara convicção. Uma voz suave e decidida atendeu do outro lado. Ela falou que achara seu número na lista telefônica e que resolvera ligar para marcar uma consulta. Ele concordou em atendê-la, negociaram pormenores e combinaram um horário para a segunda-feira da outra semana.

(...)

Deitada no divã, com o cigarro mal fumado, espremido no cinzeiro ao seu lado, ofertado pelo analista, cruzou os braços e se manteve em silêncio. Ela pensou que se acalmaria quando estivesse na sala do analista, mas aquela posição a deixara ainda mais tensa. Respirou fundo e disse seu nome entre os dentes, balbuciando. Não se apresentou ao entrar na sala, apenas o cumprimentou com um “oi”, mas não disse o seu nome, não disse nada. Deitou-se somente porque o braço do analista, imerso em sua escuridão corriqueira, indicou o divã como o espaço no qual deveria se acomodar.

Após dizer o seu nome, mergulhou num profundo vazio. Viu-se incapaz de pronunciar nenhuma sílaba, muito menos do seu próprio nome. De repente, uma angústia ainda maior devassou seus pensamentos, pois havia percebido que estava deitada de costas para um total desconhecido. Não tinha nem o visto direito. O analista estava sentado em sua poltrona sob uma nuvem escura, impenetrável, sem nenhuma visibilidade.

Conseguiu ver apenas a barra de suas calças - percebendo que ele sustentava sua inércia -, com as pernas cruzadas, e os seus sapatos de camurça, marrom claro. Quem é esse homem? - Interrogava-se. Sabia apenas, pela voz, que ele deveria ser um homem de meia idade, regulando com a sua própria idade, pois ela também já completara cinquenta anos. Mas apesar de todos esses pensamentos - ou talvez exatamente por causa deles -, nada a faria abrir a boca. Seus lábios ficaram inexplicavelmente colados. O tempo se passou e o silêncio sepulcral continuou intacto. Nenhum zumbido era ouvido naquela sala.

Seus braços cruzados sobre o peito, após um período inteiramente imóvel, começaram a formigar. Foi aí que um espasmo súbito fez com que ela espichasse seu braço de forma violenta, movimentando-o involuntariamente - pelo menos até aonde entendia -, em direção à mesinha ao seu lado com o cinzeiro, derrubando-o e espalhando as cinzas do cigarro pelo consultório.

Diante do susto, teve o ímpeto de se virar para recolher a sujeira. Ao se levantar e esticar o outro braço para pegar o cinzeiro e limpar as cinzas - que já voavam por toda a sala -, sua mão roçou na mão do analista, que também havia deslocado o corpo para apanhar o objeto caído. Aquele toque, encontro íntimo, despertou um medo sem precedentes. Tentou evitar um contato maior, mas acabou olhando a face do analista. Automaticamente cobriu os olhos com a mão, pegou sua bolsa, deixando o banco tombar, e sem olhar para trás, saiu do consultório às pressas e ganhou a rua.

Lena voltou para a casa e tentou limpar a imagem do analista de sua mente - já que não conseguira limpar as cinzas espalhadas em seu consultório. O contato de sua mão com a mão dele ficou gravado em seu corpo como as marcas deixadas por carimbos de ferro em brasa usados para registrarem o gado. Daquele instante em diante, sabia que pertenceria ao Godofredo. Mas como isso seria possível? Temeu ser vítima de alguma terrível bruxaria. Pensou inclusive que o analista fosse algum feiticeiro macabro que estivesse lhe provocando aquelas reações. Mas logo afastou essas ideias, considerando-as como um grande absurdo.

Muitos meses se passaram e Lena não mais voltou ao analista. Até um dia que não mais suportara a distância e resolveu ligar para agendar uma segunda sessão. Do outro lado da linha, Godofredo a atendeu com sua voz suave e decidida e assentiu que marcassem uma nova entrevista. A partir desse ponto, as sessões seguiram regularmente, semanalmente, durante anos, sem que jamais Lena tenha dito uma única palavra. Permanecia em silêncio ao longo de todas as sessões, sem emitir nem mesmo um ruído. O analista também não dizia nada. Nem para ir embora o analista encerrava a sessão. Era Lena que, sobressaltada, saía correndo e nem se despedia. O pacto de silêncio permanecia inabalável.

Os toques entre as mãos de Lena e de Godofredo tornaram-se mais frequentes, menos espaçados, e isso já não causava tanto estranhamento e inquietação. No início, tocavam sempre ocasionalmente, por descuido, mas depois, pela repetição, já era Lena que procurava a mão de Godofredo por trás do divã, ou até era ele mesmo que procurava a mão de Lena, estendendo a sua pela lateral do móvel.

(...)

Quando Lena se deu conta, mesmo jamais tendo dito qualquer palavra durante as sessões de análise, aquelas mãos dadas já tinham evoluído para braços dados. E ela, inusitadamente, viu-se vestida de noiva no altar de uma igreja, de braços dados com Godofredo, usando os trajes típicos de um noivo. No instante em que o padre que celebrava o casamento perguntou a ambos se eles se aceitavam, Lena ouviu de Godofredo um suave e decidido “sim”, enquanto sua voz espantada repetia o mesmo “sim” do futuro esposo, ao ser igualmente interrogada.

(...)

Lena, que nunca falara nada em suas sessões de análise, não resolvera nenhum dos seus problemas... Mas... Ganhara um marido - com voz suave e decidida.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ser Sem Rosto.














Ainda assustado pelo clarão que avistara, temeu que aquilo fosse um sinal de maus tempos. Sentia sua falta como a ardência de uma lança cravada no peito. Desde sua partida, não mais pôde vê-la, nem em seus pensamentos. Apenas a dor deixada por afetos febris insistiam em não diluir seu passado.

Sempre soube que não viveria sem ela. Apenas arrastava uma sobrevivência de relatos em diários ainda não escritos. A fisionomia daquela mulher fora rapidamente convertida em inomináveis sentimentos e vibráteis saudades que percorriam o corpo frágil. Seu rosto desaparecera por completo na escuridão de dias amargos. Na solidão da memória, os rastros das emoções perdidas e das lembranças vazias recheavam-se de feridas e de chagas lacrimosas.

Ele precisava tê-la em seus braços, envolvê-la num longo abraço, aconchegá-la em seu peito. Mas o contorno do rosto que tanto desejava afagar já se dissipara em neblinas, projetando, translúcido, uma densa penumbra naquela pobre alma engarrafada pela ausente alegria. Apenas uma gota de suor que corria por sua testa, pulava pelos cílios avolumados, escorregava pela maçã do rosto e se depositava em seus lábios, afigurou a imagem evanescente da amada como uma mordida onírica arrepiando a penugem da nuca.

Foi aí que o clarão se impôs, impávido, exigindo que o triste homem enxergasse para além do barro cozido que emoldurava seus olhos - rompendo a fina, porém opaca casca -, ou que ficasse cego de vez, lavando por completo a razão se sua tristeza. Intimamente sabia que a segunda opção estaria cortada, pois após ter dado o último passo, o regresso seria ilusório.

O mau presságio imediatamente transmitido pelo clarão - primeiro contato, impactante -, com o que se conformara por não mais existir, logo fora suprimido por um sentimento esperançoso. Talvez a silhueta embaçada à qual suas lembranças se reduziram, não representasse sua inclemente condenação. Talvez pudesse revê-la e senti-la claramente como sempre fora antes de sua morte.

Não que concordasse que a morte fosse só uma passagem para outro mundo, verdadeiro mundo, mas confiava na realização de outra passagem, aquela de que tudo é transitório, de que só o tempo cura. Mas o tempo ainda o enganara, tratara-o com escárnio. Não cumprira seu contrato assinado. Não havia respondido a seus apelos para que, ou recuperasse o sorriso da amada, ou apagasse os afetos latentes que crucificavam sua alma já tão esmagada pelos escombros dos momentos felizes. Precisava decapitar os perversos resíduos de amor que o atormentavam com uma ferocidade implacável. Seria impossível esquecer aquela que fora sua única mulher.

O contraste entre a razão e a emoção ainda o surpreendia em obtusa e profunda melancolia. O amor por uma mulher com a qual compartilhou toda a sua vida era visceral, consumindo-o em chamas. Mas esse amor não mais possuía uma face nítida. Amava-a humildemente, com todas as suas forças. Embora soubesse que a amava e distinguia quem amava, não mais tinha recursos para conceber o rosto de sua mulher. Quando forçava a memória, via apenas um borrão no lugar do rosto. Aquilo ardia em seu peito como uma azia que deposita um resto amargo no paladar. Mergulhado na vivacidade do sentimento, sufocava ao forçar a memória a sublinhar os contornos já diluídos da amada. Evaporou-se por inteiro seu registro visual.

Mas com o advento do clarão - mesmo sem a nitidez e clareza tão caras à razão humana -, a forma foi devolvida ao seu caráter palpável. Temeu - no primeiro instante em que o clarão o iluminou - rever aquelas feições há tanto tempo esquecidas. Quando seu afeto etéreo enfim se materializou na silhueta desfocada da amada, berrou em agudo desespero. Um buraco negro abriu-se, avassalador, tragando para o seu núcleo as lembranças mais sombrias que circulavam no amante em luto. Num breve instante, a fisionomia da amada se reconstituiu para o seu deleite. Ele se ajoelhou perante a imagem, suplicante, pedindo que ela o levasse consigo. Ela, delicadamente, esboçou um sorriso de ternura, compadecendo-se daquele homem para o qual nutria o mais puro sentimento, mas que quase já não suportava mais sua ausência, sucumbindo em prantos de cristais esfacelados.

A aparição momentânea da amada foi o suficiente para fazê-lo resgatar as mais difusas e controversas lembranças, plasmadas numa realidade material e visível. Mas na mesma medida em que as recordações o dominavam, elas corroíam todos os seus arquivos mentais como um vírus devastador. Quando mais se lembrava, agrilhoado na dor de existir, mais essas mesmas lembranças apagavam a complexa substância que o fazia humano. Como não haveria mais lugar para a dor, a alegria, como consequência, também se extinguiria.

(...)

Condenado a vagar desmemoriado, não mais na presença da dor pela amada ausente - pois sua ausência também já se ausentara -, os espinhos da falta dos esquecimentos e das lembranças, furavam a opacidade de olhos que viam demais, num mundo em que a potência dos afetos desativara-se.

Não havia mais tábuas de salvação. Nenhum sólido mármore no qual escorar os gritos de sua dolorida identidade - mas ainda assim uma identidade. Não mais se sentia só. Estar acompanhado deixou de ser um conceito útil. Apenas seguia seu roteiro básico. Os atos de comer, beber, trabalhar, caminhar, dormir, não encerravam qualquer qualidade. Nenhum ganho de prazer ou de desprazer além da simples satisfação das necessidades. Desumanizou-se sem se tornar um animal, um selvagem. Sem afeto, apenas seguia sem pensar.

Sem angústia, sem amar, sem desejo, sem prazer, sem a dor das lembranças da falta do rosto de sua mulher amada, aquele homem - sobre o qual já não se sabia mais onde estava sua humanidade -, arrastava-se como sólido, escorria em formato líquido, bruxuleava nauseabundo e se sublimava na calada e inaudível inexistência. Ele nunca mais bem-disse nem mal-disse sua amada, muito menos pôde novamente ser falado por ela.

(...)

Dizem que em períodos de tempestade, relampejando, com trovoadas, ele surge sorrateiramente, pelo repentino clarão em noites vagas, encarnado em cegantes feixes de luz... Mas sempre... Sem rosto.


ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.