sábado, 25 de setembro de 2010

Constituição da Pulsão.

Como postulou Freud, a pulsão é um conceito limite entre o somático e o psíquico. As primeiras experiências de prazer e de desprazer como intervenção do desejo do Outro, ainda não reguladas pelos processos de subjetivação, promovem um retorno, visando satisfação, do que constitui a dimensão recalcada das pulsões, como discurso do Outro. O corpo é mapeado e contornado em zonas erógenas pela linguagem do Outro. Essa lógica pulsional, pela qual o objeto natural já é perdido, organiza-se nas zonas erógenas, pelas bordas significantes. Então, nessa lógica da pulsão, circunscrita como repetição, sem a possibilidade a priori de simbolização, produz fixações da libido e regula, pela linguagem, as posições de adesividade do gozo para um sujeito.

A pulsão não é nem voz passiva nem voz ativa. Em relação à pulsão escópica, como desejo ao Outro, não é nem ser visto nem ver. A pulsão é da ordem da voz reflexiva, pois o que se opera é uma conjunção/disjunção da atividade e da passividade, ou seja, um "fazer-se ver", fazer-se cagar (o sujeito fazendo a demanda do Outro retornar sobre ele). Trata-se de um fazer-se objeto do Outro, uma atividade que faz a passividade, estrutural voz reflexiva da lógica pulsional.

A sexualidade, como pulsão parcial, inscreve-se na constituição da linguagem. A pulsão de morte, esse para além do princípio do prazer, paradoxalmente, constitui-se na linguagem, mas como exterioridade da linguagem. A pulsão de morte sustenta uma ex-timidade com a linguagem, pois silenciosa em seu vazio radical, está para além da linguagem, objetando-a em seu mutismo absoluto, irredutível, impossível de simbolizar, mas não sem nela estar. Força disruptiva, desfaz os laços sociais, dessubjetiva o sujeito, ponto no qual o significante não faz função, furo no real incontornável. Já a pulsão parcial, pulsão sexual, pulsão da linguagem, é o contorno significante do falo como representante da falta-a-ser, como suporte da falta, emergência do sujeito desejante.

As pulsões parciais são delineadas pelo recalque dos significantes do Outro que circunscrevem as bordas erógenas da linguagem, tecendo o furo de um objeto perdido desde sempre. Esse objeto que se constitui como resíduo da operação significante, conceituado por Lacan de objeto a, presentifica-se como ausência radical, fantasmático, falta estrutural, como mais-de-gozo. Já a pulsão de morte carreia o impossível gozo total para o sujeito, nomeado por Freud como masoquismo originário, deixando antever uma anterioridade lógica dessa pulsão à própria constituição significante da falta.

Repetindo, pois não é sem isso, a pulsão de morte se constitui num paradoxo, pois é aquilo que não cessa de se inscrever, dissolvendo o ideal-do-eu, mas que se constui na linguagem. A pulsão de morte se presentifica na linguagem mas num para além da linguagem, numa ex-timidade, pois embora a linguagem seja sua operadora, rejeita-a, projetando o mito de uma anterioridade da linguagem.

A pulsão de morte é a linguagem do pré-linguístico? Mas se Lacan já disse que não há metalinguagem? Como fica?

A pulsão de morte é o silencioso, incontornável do simbólico, furo irredutível do real, refratária à linguagem. As pulsões parciais, pulsões da linguagem, constituindo a sexualidade, inscrevem-se na dimensão fálica que sustenta a báscula que tanto pende para o simbólico quando para o imaginário. As pulsões sexuais são do "falasser", do ser falante, "falosser", do falo que suporta a falta da fala, do desejo, mas também "falecer", pois o barulho significante na gramática sexual das pulsões parciais está sempre ameaçado pela dissolução silenciosa da pulsão de morte.

texto escrito por Alex Azevedo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ver s.o.s.

Um suspiro calado, desavergonhado, lânguido, expressando a falta indizível.

Maçãs frias de manhãs enevoadas, habitantes de olhares sorrateiros, flutuantes, amores fixos.

Pedestais ensolarados, sombras projetadas no chão por onde a vida escorre.

Correr para o infindável seio da brevidade, transições atravessadas pela ira do atemporal.

Tempo oral, falas vazias, têmporas, pedras úmidas acariciadas pelo vapor.

Vá Pôr! A mãe diz ao filho, mas numa passividade rebelde, diz põe! Impõe! Indispõe.

Descolore o veio sem ritmo, corrompe ideais perdidos, sedimenta caudolosos vernizes.

Quando a vida esvai, escasseia segmentos, ex-vai, ex-foi, ex-pulsa, expõe.

Um suspiro tagarela, envergonhado, contraído, silencia para o todo da palavra.

escrito por Alex Azevedo

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Resistência como transferência.

Foi antes de conceituar a transferência, que Freud descobriu a resistência em análise. Uma espécie de um nada querer saber sobre a causa do seu sofrimento. Apesar do sintoma, que se instala no intuito de tamponar a angústia, ter se constituído no retorno do recalcado, esse mesmo sintoma é composto pela matéria prima do conteúdo reprimido. Então o analisando tem uma relação ambivalente com o sintoma. O sintoma contem o recalque, no sentido de contenção, de barreira, mas o sintoma também contém o recalcado, no sentido de estar no seu conteúdo. Freud descobriu primeiro a resistência em análise, contra esse material reprimido, mas percebeu que é justamente essa resistência, que desloca um saber para o outro, que constitui a transferência. Então, para Freud, resistência é sinônimo de transferência.
A transferência é uma suposição de saber endereçada ao analista. O analisando, sob transferência, deposita um saber sobre si no analista, um ideal-do-eu, sendo o que sabe sobre o sujeito, está no próprio discurso do inconsciente, porém apresentado como falta, como não-sabido. Mas essa é a lógica de uma análise, o analisando aponta esse lugar de saber para o analista, com uma demanda de amor, mas o analista embora acolha, não ocupa esse lugar apontado pelo analisando.
O analista, em sua ausência como sujeito, ausência essa que sinaliza a disponibilidade do analista para escutar o outro, presencia isso que você sublinhou o tempo todo, justamente porque sem isso, não haveria análise, consequentemente, não haveria analista. Entendo que uma análise se autoriza desde o momento posterior de entrada em análise, ou seja, quando o sujeito encaminhado por alguém ou identificado por algo do analista, como seu nome, sua fisionomia, sua voz, seu jeito de falar... procura-o para falar. A transferência já se estabelece até mesmo antes do primeiro contato, quando já não vem com o aval de transferência daquela pessoa que o sujeito elege para indicar um analista. É sempre do lado do analisando, que chega demandando um amor à verdade, um suposto saber ao analista, que aponta esse lugar que o analista ocupa. É a transferência que autoriza a função do analista. O analista, antes mesmo desse lugar de semblante da falta, de semblante do objeto, fica numa posição de depositário do saber, saber este que se presentifica como discurso do inconsciente como não sabido, como não-saber, mas endereçado ao analista como o "representante" desse saber inconsciente. O analista é fabricado pelo discurso do analisando como um depósito desse saber não sabido que é nada mais nada menos que o sujeito do inconsciente que está lá deitado no divã. Então, se há analista, não é a poltrona que dá esse lugar, mas só é autorizado pela e na transferência.
Um exemplo de minha experiência, para ilustrar a questão transferência/resistência, é de uma analisanda que em determinado instante, afirma que fala como uma criança, repetindo palavras infantis, pois associa sem parar um assunto no outro, enquanto eu quase não digo nada. Essa analisanda diz que está na análise para ter um espaço no qual pode falar exatamente como uma criança, podendo se ocupar dessas palavras infantis. Esse é o lugar que ela me coloca em transferência, como aquele ao qual endereça um suposto saber em testemunhar essa sua fala infantil. Só que essa fala nomeada de infantil, devido às incessantes associações, reservada à sua análise, é o que lhe causa maior repugnância de ouvir, é seu objeto fóbico, sua resistência à análise. Então, embora o lugar que essa analisanda me coloca seja de escutar sua "fala infantil", em transferência, é justamente essa fala que a repugna ouvir, sem a objetividade do "adulto" tão "cara" a essa analisanda, é sua própria resistência à análise. Eis a ambivalência do sintoma transferida para o lugar do analista.
Para concluir, agora sobre a questão da interrupção de uma análise como ato analítico, escutei um outro analisando que embora produzisse muito em análise, associando suas significâncias, não conseguia pagar suas sessões de análise. Um dia ele disse que sentia vergonha de não poder pagar do mesmo jeito que se viu inferior quando foi a um consultório médico de favor e se colocou inferiorizado na sala de espera, ao lado de sujeitos ricos. Escutei que essa fala, endereçada a mim como analista, afirmava que sem pagar, a análise dele jamais andaria, estava condenada a andar em farrapos como se sentiu no tal consultório médico. A "riqueza" do dom fálico não opera sem o artifício da simbolização com o pagamento, e esse analisando estava capturado como objeto nesse esgarçamento de uma dívida cada vez maior, inegociável, uma dívida real. Então, como ato analítico, comuniquei a interrupção dessa análise. Ele sempre prometia pagar, pelo dinheiro de uma herança (do simbólico?), e nunca conseguia (real?), ficando cada vez com mais dívidas. Embora ele associasse bem em análise, na ética do bem-dizer, nessas condições, a análise dele estava indo pelo buraco abaixo, pois se presentificava um excesso de gozo, um deslimite que o próprio processo analítico estava alimentando. Foi necessário uma interrupção como corte, como subtração desse excesso que a ausência do pagamento não permitia falar, não permitia simbolizar na falta, faltando sua própria enunciação. Piorando cada vez mais, reforçando seu sintoma, pois atualizava, nessa repetição, sua encenação de inferioridade da infância, sem recursos para simbolizá-la, pois sem dinheiro para pagar pela falta, pelo simbólico, seguia apenas acumulando dívidas impagáveis, dívidas impossíveis de simbolizar.
Nossos analisandos nos ensinam muito, muito mesmo. São eles que reinventam a psicanálise. Freud sistematizou como teoria, mas foram suas histéricas que inventaram o discurso psicanalítico, afirmando que a psicanálise, como teoria, estará sempre inacabada.


Texto escrito por Alex Azevedo.

Análise/Supervisão.

Para introduzir a questão que tentarei colocar, Lacan diz que a metalinguagem, ou seja, os diálogos, a intersubjetividade, circunscrita à análise, é da ordem do impossível, pois não há nada além do discurso do sujeito (analisante), não há nada além da linguagem como estrutura do inconsciente. O único discurso que se presentifica em transferência, é o discurso do analisante.
Por exemplo, como psicanalista, fiz uma determinada pontuação quando um analisando disse: "Fico envergonhado em falar isso, mas me disseram que eu terminei meu namoro por sua causa". Então, em transferência, esse analisando me endereça uma demanda de amor transferencial. O analista não responde a uma demanda de amor, embora seja somente essa demanda do inconsciente que constitui e autoriza a função do analista, que autoriza o lugar da transferência. Depois, esse mesmo analisando diz: "às vezes penso que eu não tenho opinião própria, pois são os outros que falam o que devo fazer, mas eu sei que se eu venho aqui, fiz uma escolha minha". Nesse instante eu pontuo que embora me diga que os outros falam o que deve fazer, quando ele faz e fala sobre isso (o que os outros cobram), quem está falando e fazendo, é exclusivamente ele. Faço essa intervenção no momento em que ele fala uma frase, afirmando que é uma frase de outra pessoa, pois afirma que não tem opinião própria. Eu pontuo dessa maneira: "Mas quem está falando?" Ele diz: "Eu". Neste momento eu encerro a sessão.
Mas a questão que eu fiquei foi a seguinte: Quando fiz tal intervenção, havia escutado a tal demanda de amor: "Fico envergonhado em falar isso, mas me disseram que eu terminei meu namoro por sua causa"? Por isso, após a sessão, fiquei pensando de qual lugar fiz essa intervenção. Será que foi uma resistência em suportar essa demanda de amor? Quando eu pontuo que quando ele diz o que os outros falam, é ele que está falando, pode ser uma pontuação do lugar de uma resistência minha em escutar essa demanda de amor.
Mas enfim, algo me convocou no discurso desse analisando, o que talvez me causou como sujeito e não como analista. Mas sendo minha questão, é questão para simbolizar em transferência na minha análise pessoal, no divã do meu analista. Mas para além de ter restado como uma questão para mim, na minha dúvida se essa pontuação ocorreu do lugar de minha resistência em escutar aquela suposta demanda de amor, eu não posso discernir se minha pontuação, para além do que restou como questão para mim, foi da ordem de um ato analítico, tendo alguma eficácia clínica, no sentido de deslocamentos simbólicos. O que é angustiante num processo de análise, e nisso eu incluo como angustiante para o próprio analista, é que é impossível prever e antecipar os efeitos de uma intervenção no analisando. Para ambos tal ressignificação é obscura, sendo apreendida na ordem de uma surpresa, de um espanto.
Embora tal intervenção que eu fiz como analista tenha me convocado como um sujeito, e isso às vezes é intransmissível, não posso controlar os efeitos de tal intervenção para o analisando. Esses efeitos, para o analisando, só serão escutados num a posteriori, num só-depois, sendo impossível, incontrolável, prevê-los em relação ao discurso do analisando. Por isso numa supervisão, devido à Lei da castração e à ética do desejo, o analista não tem recursos para relatar o que ocorreu durante uma sessão de análise como história cronológica, o analista só pode falar, numa supervisão, sobre as questões que foram causadas nele, que lhe afetaram na escuta do analisando. Então, a supervisão é uma vertente da análise pessoal desse analista. O supervisor escuta a escuta do analista. Os efeitos para o analisando, das pontuações do analista, são obscuros e às vezes alheios ao que foi causado no analista.
Numa análise só se trata de texto, e não de contexto. É o texto do analisando que conta. E quando é o texto do analista que é afetado, ele deve, em sua análise pessoal, falar dessas questões para separá-las do texto do analisando, e assim poder continuar escutando.
Será que o que me levou a resistir ao escutar esse analisando, foi justamente essa convocação, no meu inconsciente, e não no desse analisando, que me tomou não como analista mas como sujeito? Escutei como sujeito, e não como analista? É somente a transferência que autoriza a função do analista, e só há analista como um sintoma do discurso do analisando, pois é somente o analisando, endereçando um suposto saber, que constitui o lugar do analista.
Mas a pontuação que eu fiz, mesmo achando que escutei como sujeito, pode ter causado algum efeito para esse analisando como uma pontuação do lugar de um analista, e não do lugar de um sujeito. Para o analisando, dependendo da situação, não importa muito como ficou para mim a minha escuta, importa como a minha escuta ficou para o analisando. E isso só vou "saber" ao longo das próximas sessões. Acho que é disso que se trata uma supervisão, falar do desejo de analista para outro analista, também como transferência de trabalho, e reenviá-lo para o lugar da análise do analista.
Talvez essa minha escuta que chamei de uma escuta do lugar do sujeito seja algo que compareceu apenas na minha análise, na análise do analista, em transferência com meu analista. Em relação a esse analisando, só houve escuta do lugar do analista, pois é somente nesse lugar, de transferência, que um analisando escuta as pontuações do analista.
A teoria psicanalítica é transmitida sob transferência, tanto numa análise quanto numa supervisão. Falar desse lugar de causa sobre um analisando para um outro psicanalista (supervisor), essas pontuações operadas desse lugar, convocando o desejo do analista, constitui um ensino, pois consiste em algo que irrompe na experiência, articulado com os textos freudianos fundadores. E é aí, somente nesse ponto, que a diária reinvenção da psicanálise se opera.

Texto escrito por Alex Azevedo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Nascimento de Vênus: Posição feminina

Gostaria de tentar delimitar algumas questões sobre a sexualidade feminina. Se há uma sexualidade restrita ao feminino, como o "Outro sexo", ou se é uma versão fálica, da libido masculina. Pensar a sexualidade enquanto dialética do ter e do ser a dimensão fálica; do falo enquanto significante da falta, inscrevendo a falta-a-ser do sujeito do inconsciente. Uma mulher desliza entre a posição de Ser o falo, como objeto do desejo de um homem; e Ter o falo, estando o bebê como equivalente fálico na metonímia do desejo.

Vamos ver o que diz Lacan (1998, p. 739), a respeito da introdução do falo no modo de subjetivação da mulher, ao inscrever a função peculiar de sua sexualidade: "Seja como for, reencontra-se a questão estrutural introduzida pela abordagem de Freud, isto é, a de que a relação de privação ou de falta-a-ser simbolizada pelo falo se estabelece, como uma derivação, com base na falta-a-ter gerada por qualquer frustração particular ou global da demanda - e de que é a partir desse substituto, que afinal o clitóris instaura antes de sucumbir na competição, que o campo do desejo precipita seus novos objetos (antes de mais nada o filho por chegar), pela recuperação da metáfora sexual com que já estavam comprometidas todas as outras necessidades".

Didier-Weill (2007, p. 105), diz: "Na estruturação da convocação masculina, o Complexo de Édipo declina com a entrada em cena do Complexo de Castração, quando a metáfora paterna, a função de introdução da falta simbólica produtora do desejo, atribuída à mediatização pela intervenção da lógica paterna, inscreve a dimensão da falta com a interdição do incesto. A metáfora paterna baliza, então, o gozo da função materna, o que constitui o âmbito do ideal-do-eu e o corte fundamental que é a angústia da ameaça de castração. Assim, o menino convocado na dimensão de sua castração simbólica, de seu recalque originário, identifica-se à função paterna e articula o enquadramento de sua identidade simbólica na convocação social da função fálica que exerce o poder de representar a posição masculina.Para Freud, o Pai da horda é dito primitivo, mas, na verdade, é revelado pelo Filho, já que é preciso o ato parricida cometido pelo Filho para que, no só-depois, surja, por intermédio do remorso, a significação do Pai. Ao contrário, para Lacan, o Pai precede o Filho: a significação da filiação é o efeito do só-depois de uma metáfora paterna. Assim, para Freud, o sujeito não pode superar a culpa edipiana, já que ela não remete apenas a uma fantasia, mas ao ato real de um parricídio."

Então, entendo que já na estruturação psíquica das meninas, há uma inversão, o Édipo não é totalmente finalizado, fica em aberto, à espera de um homem que a situe e lhe dê o tão esperado “presente” que seu pai não permitiu lhe dar, um bebê. Quando a menina percebe a falta fálica em sua mãe, depara-se com a impossibilidade que seu clitóris se desenvolva e transforme-se num pênis, então, ao contrário do que acontece nos meninos, a castração se instaura num primeiro momento, advindo o Complexo edipiano, somente depois da constituição da castração do falo imaginário, fazendo com que a menina se identifique ao pai e rivalize com a mãe, estendendo a promessa edípica de receber o presente-falo do pai como um filho que se presentificaria em substituição à sua falta fálica.A maternidade, então, na concepção psicanalítica, consiste no fenômeno capaz de promover uma assunção enquanto insígnia da feminilidade, sugerindo uma das saídas possíveis para o irredutível prolongamento das relações edípicas de uma menina.

No advento da maternidade, uma mulher finalizaria de uma vez por todas seu Complexo de Édipo, lidando com as peculiaridades num fazer-se mulher, operando na falta radical de um significante no Outro que represente a mulher. A rigor, para a psicanálise, só existe um único sexo, o masculino, no qual circula a libido no gozo fálico. Só em 1923, com a introdução da fase fálica na teoria da libido (Freud, 1923), é que ficou mais clara uma de suas afirmações mais contundentes neste assunto: aquela que diz só existir um sexo, o masculino. O feminino é a diferença, o negativo, o não-todo fálico, o gozo do Outro. Deste modo, há um devir mulher, a mulher acontece, é pura contingência.

Há uma falta radical de um significante no campo do Outro que represente a mulher. O feminino não se constitui na ordem de um dom simbólico, de um traço fálico em torno do qual se circunscreve a posição masculina. Há uma posição feminina, mas não há um significante da mulher. Uma mulher existe, faz-se mulher não só pela marca da instância fálica, mas como não-toda fálica, somente quando se deixa tomar pelo desejo de um homem ou quando comparece sua feminilidade no advento inefável da maternidade, fazendo-se dele seu objeto de desejo. Lacan (1985) diz que não existe propriamente uma simbolização do sexo da mulher, não existe um significante que represente a mulher, e que a saída da fase fálica está ligada à descoberta que o pênis não é o falo, mas apenas um dos seus representantes, pois o falo real não existe.Na configuração a priori de uma mulher, é a primazia da castração real que está em jogo, de uma devastação com a mãe, de um lugar impossível de transmissão da feminilidade, de uma falta estrutural. Ou seja, a falta de um traço universalizante capaz de identificá-la como pertencente a um grupo.

Uma mulher, diante da falta estrutural de um significante no campo do Outro que represente o impossível da relação sexual, identifica-se ao desejo da Outra mulher. Uma mulher deseja o desejo dessa Outra mulher, deseja desejar como a Outra mulher deseja, supondo um saber, algo que a Outra mulher tem que ela não tem, que possa dar respostas, que possa dizer sobre o enigma do que quer uma mulher. No caso Dora relatado por Freud, quando o discurso do senhor K faz decair o desejo da senhora K, ao qual Dora se identificava, essa sustentação fantasmática caiu e Dora passa ao ato, identificando-se ao objeto a, dando um tapa na cara do senhor K.

O que o homem porta para uma mulher, é o seu próprio desejo. Já vi um caso em que uma mãe endereçou uma queixa ao analista, sobre a mudança repentina de sua filha, situando o nascimento de um irmãozinho como marco originário. Numa outra sessão, é o pai que leva a filha à analista, dizendo que houve uma melhora e que ele só levou a filha porque ela quis muito que essa analista visse a bonequinha que o pai deu a ela. Mas é exatamente isso que está em jogo, uma "ferida" narcísica incicatrizável, e a reinvidicação de um impossível que essa filha faz a sua mãe. Pois sobre a promessa edipiana, percebendo que o falo da mãe é essa filha, ela então percebe que se a mãe é desprovida de pênis, é o pai que ocupa o lugar de entregar à mãe esse pênis, que no caso, a filha representa.Então a menina entra no Édipo com o pai, esperando ela mesma, receber o seu suporte fálico. Só que o pai a "trai", e ao invés de dar um bebê/falo para ela, acaba dando para a sua mãe.

Daí a revolta da menina, que competia o amor desse pai com a mãe, mas é a mãe que continua a ganhar os presentes fálicos desse pai. Até o momento em que o pai presenteia essa filha com uma boneca, simbolizando assim esse movimento, significando que o pai pôde fazer essa trasmissão fálica a essa filha. Ou seja, um filho real eu não posso dar, mas uma boneca sim, que signifique essa herança da promessa edípica.Nenhum sujeito pode ostentar o falo, justamente por estar fundado na ordem de um impossível. A ostentação fálica é impossível, pois não existe falo real.

O sujeito pode sustentar o falo, e não ostentá-lo... sustentação no âmbito do simbólico, sustentação na ética do desejo, em sua lei simbólica.Não é da ordem do saber, muito menos da intenção... É uma outra articulação que se opera no inconsciente... E outra coisa, o inconsciente não tem fundamento, constitui-se numa construção atemporal. Então, a menina não sabe, pois a boneca é uma metonímia do falo.O que uma mulher quer ao ter um filho, para além de estancar a ferida de sua falta fálica? Por isso a dificuldade de ser mãe, de liberar seu filho através da constituição da significação fálica, para não obturá-lo, na impossibilidade do luto, como objeto de gozo do Outro.

Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund. "Organização Genital Infantil: Uma Interpolação à Teoria da Sexualidade", 1923; in Ed. Stand. Bras, vol. XIX; Rio de Janeiro. Imago Editora, 1976.
________: "Sobre o Narcisismo: Uma Introdução", 1914; idem, vol. XIV.
________: "A Dissolução do Complexo de Édipo", 1924; idem, vol. XIX.
________: “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, 1905; idem, vol. VII.
LACAN, J. “Escritos”. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Editora – Jorge Zahar Editor, 1998. – “Diretrizes Para um Congresso Sobre a Sexualidade Feminina”.
________: “O Seminário, livro 4. “A Relação de Objeto”; Rio de Janeiro. Zahar Editor, 1995.
DIDIER-WEILL, A. “Quartier Lacan”. Rio de Janeiro: Companhia de Freud Editora - José Nazar Editor, 2007.


texto escrito por Alex Azevedo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Paixão: Um Fantasma Objetal.

A partir do que Lacan enunciou, afirmando que o Outro não é a imagem refletida no espelho, mas sim o próprio espelho, podemos pensar que o Outro é o contorno significante do furo dessa imagem, regulando a realidade do desejo.Sendo assim, quando o sujeito se apaixona, numa incomunicabilidade fundamental, por não haver outro sujeito, é o objeto fálico que se presentifica. A paixão não é pelo outro, mas pelo objeto que esse outro supostamente pode oferecer. O objeto não é nem do Outro, nem do sujeito, mas se depreende, cicunscrevendo como furo significante, a falta fálica que é a própria substância do objeto, a castração por não ser total para o campo do Outro.
O furo do objeto, como suporte da falta, internalizado subjetivamente, é o que o sujeito, numa projeção fantasmática, identifica como estando no outro imaginário, como aquilo que o outro pode oferecer para substituir a perda simbólica na dimensão Outra do inconsciente.O objeto está fixado na estrutura da linguagem, na alteridade simbólica do inconsciente, regulando o circuito pulsional. O que se desloca são os envelopes significantes, as nomeações que presentificam o objeto, como numa cadeia metonímica.
É nessa operação, submetido ao gozo da paixão, que o sujeito pega emprestado, apropria-se do nome do Outro, envelopando a evanescência do objeto, revestindo a castração com esse envelope significante do nome do Outro. Com esse envelope nominal, o sujeito passa a acreditar que o objeto veio do representante imaginário do Outro, os outrinhos da fantasia, como aquilo que esse outrinho ilusoriamente ofertou na direção do seu amor, que se traduz pela função do sintoma.
Só que o Outro transmite significantes, que ultrapassam o sujeito em sua constituição, e não objetos. Seus significantes encobrem, fantasmaticamente, o furo inscrito pela falta do objeto, na subjetividade do sujeito. Porém, no ato de velar a falta, esta revela-se nos interstícios significantes, estando o significante fálico, o significante da falta de um significante no campo do Outro.A paixão se dá por uma alienação ao gozo objetal, por um recorte, por uma pulsão parcial que possibilita que o sujeito se deixe capturar por esse recorte do Outro.
O que desliza não é o objeto, mas sim o posicionamento de significância do sujeito diante desse objeto. O sintoma, irremovível em seu artifício desejante, estruturando as ficções simbólicas de um sujeito, quando desloca, incluindo o analista, no dispositivo clínico, não faz deslizar o objeto, mas sim os significantes que permitem a emergência desse objeto suporte da falta, envelopando-o.Na paixão, com os (des)encontros libidinais, o objeto do campo do Outro se torna instrumento para alavancar o mais-de-gozo do sujeito. Mas é o objeto que captura o sujeito, como suporte da falta de um significante que dê conta da não relação sexual. O Outro, como suporte que emoldura o especular, faz o sujeito gozar com a imagem de si refletida, no escopo narcísico da paixão.
Na paixão, o nome da série de outrinhos imaginários, do rapaz ou da mocinha, desliza na sucessão significante que envelopa o brilho fálico do objeto. Nessa repetição obturada pela paixão, em que o "mais um" causa o que se presentifica da falta estrutural do sujeito, é diferente da angústia da falta na castração, que convoca o sujeito numa retificação de sua demanda, no processo de análise.
Na paixão, o furo comparece justamente na dimensão daquilo que preenche a falta fálica do sujeito, estando o narcisismo enquanto fina película encobridora da castração. Mas a castração da diferença sexual é intrínseca ao posicionamento do sujeito, sempre articulando o narcisismo à ferida, à escolha objetal: "Nasce-um-cismo"!
Então, para concluir, já num para-além da problemática da paixão, Lacan diz que a angústia não é sem objeto. Mas um objeto como moldura das fixações pulsionais, subsumido em sua natureza. Mas a angústia, como conseqüência objetal, permite, na constituição do sujeito, uma mobilização das nomeações do objeto, como deslize do sintoma, incluindo-se à figura do analista. Então, não é o objeto que se desloca no processo de luto suscitado pelo dispositivo analítico, pois o objeto continua lá, como adesivo de gozo para um sujeito. O que desliza, como deslocamento sintomático, são os nomes atribuídos ao objeto. É a metonímia.

Texto escrito por Alex Dias.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Nascimento da Verdade.


Atualmente estou causado pelo que faz contorno no recorte da verdade. Será que poderíamos pensar que a verdade se constitui como um modo de posicionamento, na circunscrição da diferença sexual, no que diz respeito ao gozo do Outro?
Na dialética do semi-dizer, operada pela construção significante, ao cingir o real, o objeto suporte da falta é bordejado, emoldurando-o no deslizamento significante.
Ao balizar algo do gozo pulsional, como um avatar da subtração pela ordem fálica, causa do discurso, esse resto indizível que cai, irreconciliável e irredutível, configura-se num registro, fazendo furo ao saber. Aponta, então, para o suporte da falta, para a verdade, restando apenas ao sujeito bem-dizer seu sintoma, ao supor um saber ao Outro daquilo que lhe escapa.
"Digo sempre a verdade; não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível materialmente: faltam palavras. É justamente por esse impossível que a verdade provém do real." (Lacan - Televisão)
Mas para situar a minha questão, penso que a verdade está menos num viés de saber, do que submetida ao tempo. A verdade é um rasgão lógico do recalque priomordial, posição do impossível, como terceiro ao sexo.
Será que a verdade concerne num tempo anterior ao saber, no ponto de impossível da "ex-sistência" da relação sexual, sem representação no inconsciente, que inaugura a constituição do sujeito?
Será que a verdade concerne ao ato de escolha dos sexos, diante da castração, como fundação do inconsciente? Será que a verdade está do lado do sujeito, ou do que está desde sempre perdido, que o ultrapassa, que aliena o sujeito ao desejo do Outro?
Porém, é justamente esse objeto vazio, no "entre-dois", como terceiro, na dialética do sujeito-Outro, que lhe escapa, mas que é tão íntimo a ele, que o sujeito precisa subjetivar; objeto inapreensível, acessando-o apenas pela precariedade de sua produção fantasmática?
Na constituição do sujeito, quando a mãe sustenta seu bebê, algo para-além da necessidade é operado, pois as palavras são transmitidas. O bebê recebe aquilo que a mãe, em sua função, lhe oferta, significantes. É nesse instante, numa alienação radical ao desejo da mãe, que o bebê se submete, na ordem da linguagem, a desejar que a mãe o deseje, desejando apreender algo insimbolizável, que se situa como os restos das nomeações, das significações que a mãe veicula, transformando a necessidade em demanda.
Mas ao presentificar sua divisão, no tempo do olhar, essa mãe após fixar sua libido em seu bebê, busca, numa a posteriori fundamental, encontrar o olhar de um homem, pai de seu bebê. A função paterna se introduz no discurso da mãe, produzindo o campo da impossibilidade, da perda do objeto imaginário, barrando a identificação do bebê em ser o objeto fálico que obturaria a falta dessa mãe.
Mas para não desviar tanto do percurso de minahs elaborações, gostaria de retomar a questão que formulo: É possível supor a verdade ao analista? Será a verdade um viés do tempo e não do âmbito do saber? A verdade diz respeito à escolha sexual, ao ponto de impossível da relação sexual? A verdade diz respeito à posição do sujeito, no tempo lógico, como menino ou menina, diante do gozo do Outro, antes mesmo de que o saber se opere?

Questionamentos:
Todos os analistas, quando estão com seus analisandos, estão na posição feminina? E é essa posição de causa, posição feminina do analista que possibilita o desejo? O desejo não é volitivo, não tem nada a ver com a vontade. Então, por que aquela coisa desagradável insiste, retorna, escapa ao prazer? Por que será que tanto aquilo que vai contra a vontade, continua lá, intacto, buscando se satisfazer? Ora, isso é o desejo, essa coisa incômoda, o resto, o que o sujeito não quer, mas nunca vai embora, pois ineliminável e irrealizável.... Esse resto pode acarretar numa atuação daquilo que se repete, atuação das adesividades de gozo, das fixações da libido, constituindo o campo do impossível, daquilo que não se opera pelas simbolizações. Posição feminina esta que constitui a causa do analisando.
Todo analisando, mesmo que não estruturado na neurose histérica, histericiza o discurso. Todo analisando, endereçando sua falta como demanda de amor, colocando o analista em transferência, em sua série sintomática, tem o discurso histérico. Numa análise, o discurso histérico como sinônimo do discurso do analisando, viabiliza que o único discurso existente numa psicanálise é o discurso do analisando (discurso histérico), por isso que não há uma fala do analista, pois o analista opera como causa desse discurso. A aposta, então, é que, numa psicanálise, o sujeito constitua a ética do seu desejo, formulando um saber que presentifique a singularidade do traço inerente ao subjetivo, como articulado aos faltosos significantes do Outro, do discurso do inconsciente. Possa elaborar o luto do objeto perdido, luto de suas ficções (fixões), ressignificando e deslocando na semi-verdade que é indissociável de suas particularidades, da linguagem do Outro que fala como discurso do analisando, daquilo que é mais refratário e indomável, ou seja, das peculiaridades de um sujeito desejante, de um falasser, de uma falta-a-ser.

Referências Bibliográficas: LACAN, J. Escritos - Campo Freudiano no Brasil. Jorge Zahar Editor.
FERREYRA, Norberto. A Experiência da Análise - Companhia de Freud. José Nazar Editor.


texto escrito por Alex Dias.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ex-timidade

O recalque é o que há de mais Outro para um sujeito. Isso que retorna, repete, insiste, fazendo sintoma, é tomado pelo sujeito em sua dimensão exterior, estrangeira, estranha; pressionando para falar, como se fosse uma possessão demoníaca. Mas o sujeito, numa alienação, escolhe nada saber sobre seus impulsos mais íntimos, deslocando-os para o exterior. E o retorno desses impulsos recalcados, deslocados para o exterior, faz o sujeito sofrer como se fosse uma experiência de invasão. Freud já dizia: "... se a teoria psicanalítica está certa ao sustentar que todo afeto pertencente a um impulso pulsional, qualquer que seja a sua espécie, transforma-se, se recalcado, em angústia, então, entre os exemplos de coisas assustadoras, deve haver uma categoria em que o elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo recalcado que retorna" (1919 - v.XVII - p.300).
E esse retorno que insiste, que pressiona, causando um estranhamento, é o que há de mais familiar para um sujeito, mas que atravessou distorções na fantasia através do mecanismo do recalque. Então, nesse retorno do material recalcado, expresso pela compulsão à repetição, fazendo sintoma, formações do inconsciente, captura o sujeito na ordem de seu complexo de castração. Essa experiência de inquietante estranheza, tomada pelo sujeito como vindo de fora, configurada como algo que vem de um lugar Outro, em sua radicalidade, é o lugar no qual o desejo do sujeito se inscreve. Então, esse Outro, essa alteridade do recalque que não cessa de retornar, de repetir, é o lugar por excelência onde o desejo se inscreve. O Outro, lugar desse desejo estranho, então, é o que há de mais íntimo para um sujeito.

texto escrito por Alex Azevedo.

sábado, 21 de março de 2009

O Furo no Ideal-do-Eu.

O que constitui um pacto simbólico, um laço social?
No mito científico freudiano, o pai da horda primitiva, construido em "Totem e Tabu", faz a exceção do Outro, portador do objeto sagrado, intocável, promovendo a proibição do "incesto", no caso, a posse das mulheres tribais. Em um ato de parricídio, os filhos, em suas posições hierárquicas diante do Outro exceção, entregam-se à devoração, desmaterializando esse pai. Esse ato, então, destitui a ordem paterna no real, internalizando-a, inscrevendo a lei, enquanto função simbólica, organizando as pulsões, como metáfora paterna. Os tribais da horda primitiva, passam a se constituir pela culpabilidade, totemizando esse lugar de terceiro, ocupado pelo Outro exceção, como artifício de simbolização desse pai morto pelas fúrias pulsionais. Então, esse Outro simbólico, não mais externo, no real, organiza a sociedade enquanto inscrição fálica do recalque.
A humanidade de cada sujeito se viabiliza através desse Outro exceção, constituindo o "ideal-do-eu" como referência a um enquadramento desse grupo social, identificando nesse lugar do Outro exceção, tanto a possibilidade de exclusão, quanto de legitimidade em relação a um determinado comportamento como circunscrito numa referência de identidade.
Esse Outro que autoriza uma existência, como inscrita numa função simbólica, marcada pela diferença sexual e pela diferença geracional, é o representante da exceção que só legitima uma atitude de um sujeito, seguindo a lei simbólica da humanização.O ideal-do-eu, como instância simbólica, faz o sujeito percorrer essa representação do Outro como recurso à sustentação de sua humanidade, caso o seu comportamento extrapole essa lei simbólica, rompendo o pacto social enunciado pelo Outro, esse sujeito se desumaniza, deixando de pertencer ao grupo regido pelas insígnias referenciais do Outro exceção.
Por exemplo, numa deteminada época, o lugar do Pai era aquele do direito divino, como um grande sujeito canonizado, sendo este recalque a definição do que está ou não dentro de uma "humanização" regulamentada por uma normatividade religiosa. Após esse período, na estatatização enquanto suporte da lei paterna, o Estado laicizou a ordem paterna, reconstruindo e deslocando a significação fálica para o lugar do Outro Estado, sendo a instância da exceção que legitimava ou rejeitava uma produção humanizada, disciplinando as "verdades" de um sujeito como pertencente ou não de um conceito de humanidade vigente.Mas e na "pós-modernidade"? Por mais que houvesse, no processo de transformação, no patriarcado, de uma ordem sacralizada da ordem paterna, como Outro terceiro, da exceção, para uma ordem laica do Estado, elementos e correlações que indicassem a implicações de perdas, nesses movimentos de deslocamentos, a inscrição simbólica permanecia preservado. Mas na "pós-modernidade", não há o que implique em perdas nesse deslocamento da inscrição simbólica das pulsões, pois na própria "pós-modernidade", a inscrição simbólica sofreu uma destituição radical, um declínio da metáfora paterna que desorganizou o circuito pulsional, desumanizando o sujeito, pela desistência da lei do seu desejo.
Ao meu ver, o ódio perdeu o balizamento do verbo, e sem essa sustentação discursiva, pela ordem fálica, o ódio passou a ser realizado enquanto "passagem ao ato". O que inviabiliza como suporte pela linguagem, retorna como ato, fazendo estragos por uma violência dessimbolizada. O que, então, na "pós-modernidade" pode reivindicar o lugar do Outro exceção? Um efêmero personagem de telenovela global, sem consistência de referências? O simbólico está dessubjetivado, e só comparece no exterior real? O que então faz sintoma se houve uma falência do lugar simbólico do Outro? Onde está o recalque organizador da sociedade? E o ideal-do-eu, presentificado pelo amor edipiano, foi extinto? O supereu que assegurava o ideal-do-eu, perdeu sua função, que era balizar a ética que humanizava um sujeito?

Um adendo:
No mito da horda primitiva, o Outro exceção, o Pai real, que possui todas as mulheres, o "Um", escapa à castração, porém constitui, marcado por essa exceção da castração, um conjunto universal de homens organizado pela função fálica, pela castração simbólica. O que, por sua vez, inscrevendo a função simbólica nas pulsões, produz a fundação do sujeito.
A castração não constitui um respeito ao outro semelhante como lei escrita... a castração constitui sim, a própria dimensão do Outro como Lei simbólica, como Lei inscrita, balizando a relação do sujeito com os outrinhos de sua realidade imaginária. A vergonha, como um dos destinos do constrangimento, de uma inibição desejante, como estrutura obsessiva, está lá como um substituto da culpabilidade, como já uma produção dessa nova economia psíquica. A ausência de vergonha, pode tanto concernir ao desmentido da lei paterna, no campo estrutural da perversão, ou mesmo como o traço por excelência que sustenta uma fantasia neurótica, quanto dizer respeito à operação de culpabilidade diante do "banquete totêmico".

Os livros que me inspiraram a escrever esse texto, suscitando esses questionamentos, foram: "A Arte de Reduzir as Cabeças", de Dany-Robert Dufour e "O Homem Sem Gravidade", do Charles Melman e Lebrun.

texto escrito por Alex Azevedo.